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S.Petersburgo: cidade mártir
Tendo seus fundamentos sido assentados numa minúscula ilha do Rio Neva, que desemboca no Mar Báltico, a cidade de São Petersburgo, na Rússia, um dos mais engenhosos e belos projetos urbanísticos da Europa, completa em 2003, 300 anos da sua fundação. Da fortaleza inicial, erguida por Pedro, o Grande, falecido em 1725, a cidade esparramou-se por uma enorme extensão, tornando-se durante dois séculos, de 1712 a 1919, a capital do Império Russo. Centro político e da grande cultura russa e internacional, atraiu para si os melhores nomes das artes do país e do exterior, o que não a salvou de ser perseguida e cercada durante os turbulentos anos de guerra e de revolução.
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O czar Pedro dominado a tempestade
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"...esta grande janela aberta recentemente no Norte, através da qual a Rússia olha para a Europa". (Francesco Algarotti, 1739) Velejando pela embocadura do rio Neva, recém conquistada aos suecos durante a Guerra do Norte, o czar Pedro, o Grande, decidiu desembarcar na pequena ilha de Zayachii ostrov. Arregaçando as mangas, ele que apreciava o trabalho físico, deu início as escavações do que viria a ser a futura fortaleza de Pedro-Paulo (que, em tempos de paz, pelos dois séculos em diante, serviu como central de encarceramento dos inimigos políticos do regime). Ao redor dela, nos canais que ainda seriam abertos, o czar mandou então que erguessem uma majestosa cidade. Exigiu-a de pedra para que a presença russa no Mar Báltico fosse para sempre. Uns anos antes ele viajara para o Ocidente, visitando a Alemanha, a Inglaterra e a Holanda, impressionando-se vivamente com a prosperidade reinante. Encantou-se quando viu a assombrosa paisagem de embarcações que os estaleiros de Amsterdã estavam construindo. A Rússia tinha que deixar de ser asiática, dar um basta nos hábitos tártaros, fazer aparar ou cortar aquelas barbas imensas que os mujiques, os camponeses, usavam, imitando os patriarcas bíblicos. Era essa a razão que o levou a fundar no dia 27 de maio de 1703 a sua nova capital: São Petersburgo (homenagem a São Pedro). Através dela, transferindo o trono de Moscou, a Rússia ingressaria na Europa. Para melhor supervisionar as obras, um projeto do arquiteto francês Jean-Baptiste LeBlond, ele alojou-se numa izbá, uma casinhola, onde ficou pelos primeiros cinco anos, até 1708. O custo humano foi terrível. Dizem que boa parte dos palácios e demais prédios públicos foram erguido sobre o ossuário dos operários mortos, gente que ele arrebanhou de todos os lugares do país. Fundada, disse o historiador N. Karamzin “sobre lágrimas e cadáveres”. Pedro não viu a cidade pronta, mas a estrutura urbanística permaneceu sempre a mesma. Diderot, estranhando aquele translado de Moscou para a beira do rio Neva, comentou que “ era o mesmo do que colocar o coração na ponta do dedo”. O produto final, porém, foi uma maravilha. Os russos, que a chamam de Veneza do Báltico, até hoje dizem que ela é a mais bela cidade do mundo Pode ser, mas distou longe de ser a mais feliz.
Coube a Nikolai Gogol, entre os literatos russos, expor suas desconfianças sobre a nova capital. Os seus personagens eram gente comum, sem raízes como Akaky Akakievich, que se via perdida em meio aquelas multidões que circulavam pela Perspectiva Nevski, a maior avenida da capital. Para ele tudo aquilo era um engano, a Rússia não era aquilo: “Tudo é sonho”, escreveu ele, “Tudo é outra coisa do que parece!” Afirmação que Dostoievski assinou em baixo quando assumiu-se como um eslavista hostil ao ocidente, dizendo-a uma “cidade para os meio-loucos”.. Para muito intelectuais conservadores, Pedro, o Grande, imortalizado com a magnifica estatua do Cavaleiro de Bronze mandada erguer por Catarina II em 1782, destruiu com seu projeto de modernização (inspirado pelo filósofo alemão Leibniz) os laços dos russos com a sua ancestralidade eslavo-bizantina e cristã-ortodoxa.Cidade da cultura - da música de Glinka, de Mussorgski, Tchaikóvski, de Rimsky-Kórsakov, de Shostakovich, de Stravinski, do balé de Diaghilev, de Nijinski e de Ana Pavlovna, do teatro de Meyerhold, da poesia de Alexander Blok, de Maiakóvski, e de Ana Akhmatova, das telas de Chagall, de Malevich e de Kandinsky, a que possuiu o maior museu de artes do mundo, o Hermitage -, do epicentro das revoluções de 1905 e de 1917, que puseram fim aos 300 anos do domínio despótico da dinastia Romanov, sua existência foi ameaçada tanto pelos comunistas como pelos nazistas.
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