EUA e o Grande Porrete
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Roosevelt, o caubói de Dakota
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A atual política externa dos Estados Unidos está prestes a executar uma ruptura com o seu passado recente. A administração George W.Bush quer, a partir da tragédia de 11 de setembro de 2001, romper com as ligações que mantinham o pais em estrita relação com seus aliados europeus e aventurar-se sozinha, sem delongas e demoradas consultas, numa séria de intervenções armadas em escala internacional para por abaixo o chamado Eixo do Mal. É o retorno da aliança entre a política do big stick, o Grande Porrete, com a do big buck, do Dinheiro Graúdo, que marcou a diplomacia americana nos começos do século 20.
Origens do Corolário
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O Grande Porrete contra os árabes
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"Os Estados Unidos, ainda que relutantemente, em caso flagrante de desordem ou total impotência, exercerá o poder internacional de polícia."
Corolário Roosevelt, 1904
Mal se iniciava o século 20 quando a Venezuela, numa das suas crônicas confusões políticas, meteu-se em sérios apuros internacionais. O recém ascendido presidente, um caudilho chamado Cipriano Castro, que empalmara o poder em 1901, encontrou os cofres rapados. Ao verificar os livros deparou-se com uma divida externa impressionante. Os juros dos grande bancos europeus devoravam o sangue e a seiva da pátria de Bolívar. Castro bateu pé. Não pagaria mais nada. Naqueles tempos não haviam tecnocratas do FMI, logo foi um consórcio de esquadras (inglesa, alemã e italiana), desferradas pelos banqueiros, quem tratou de executar a dívida. Os portos venezuelanos foram bloqueados e alguns dos seus navios foram apreendidos em La Guaira pelos vasos de guerra europeus. Castro, em dezembro de 1902, lançou um manifesto indignado, mas pouco pode fazer. No ano de 1903, os Estados Unidos, assumindo o controle diplomático da situação, tratou de arranjar uma acordo.
Quem não gostou nada da história toda foi o presidente Theodor Roosevelt, o Theodor Rex, como apreciou chamá-lo Edmund Morris, um dos seus biógrafos. Sentiu-se agastado com o fato de uma frota européia praticamente invadir seu pátio sem que ele pudesse impedir. Decidiu-se então enviar ao Congresso, em 1904, o Corolário Roosevelt, entendido como documento complementar à Doutrina Monroe. Dali em diante, afirmava o seu enunciado, os Estados Unidos não aceitariam demonstrações de força nas suas áreas de interesse. Ainda que os motivos fossem aceitáveis, como o de executar dívidas em atraso. Se quisessem, os financistas europeus, determinar aquele tipo de operação, que solicitassem antes os préstimos dos Estados Unidos, porque doravante o governo americano se arvorava em concentrar os poderes internacionais de polícia. Se algum vizinho, por sua vez, não se comportasse, ferisse interesses, resvalasse no caos e no vandalismo, na devastação de propriedades, ele não hesitaria em enviar a Grande Esquadra Branca, como ele chamava a sua marinha, para por ordem nas coisas.
Nascia assim, há quase um século, a célebre política do big stick, o grande porrete. Significativamente foi contra o mundo árabe que ele foi usado pela primeira vez. Naquele mesmo ano, no dia 18 de maio de 1904, um ricaço grego-americano, chamado Ion Hanford Perdicaris, que vivia como um nababo em Tanger, nas terras do sultão Mulia Abdul-Aziz, fora seqüestrado. Almoçando no seu palácio, nos afora da cidade, Perdicaris e o enteado tiveram a refeição interrompida por um bando de bérberes invasores que, ameaçando-os com suas adagas recurvas, os arrastaram pelos cômoros a fora. Levaram-nos na presença de Mulai Ahmed er Raisuli, um chefe tribal local, famoso por ser uma espécie de Robin Hood dos desertos, a quem o governo considerava como “o último dos piratas bárbaros”. Roosevelt viu naquilo a chance publicitária para a sua reeleição.
De imediato, a título de salvar um cidadão norte-americano em apuros, ordenou que quatro encouraçados, atravessando o Atlântico, rumassem para ao Marrocos para fazer o sultão aceitar as exigências do seqüestrador, por que segundo um impertinente telegrama que ele enviara “Quero Perdicalis vivo ou Raisuli morto!” O próprio Perdicalis reconheceu mais tarde que o tal bandido nada mais era do que um líder tribal acossado pela miséria e pela tirania do sultão, um patriota que queria livrar o Marrocos dos assédios vindos de fora. Roosevelt, porém, não deixou de usar o resgate de Perdicalis como um belo trunfo a fazer desfilar nas eleições que deram-lhe mais um mandato.
O Grande Porrete, hoje
Por conseguinte, a política do presidente George W. Bush, exposta da
Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, documento enviado ao Congresso - na verdade uma mistura de ameaça de guerra ao mundo e sonoro desprezo às instituições internacionais - , é uma revivência do Grande Porrete de Theodor Roosevelt, com a diferença de que o big stick de hoje é nuclear, é devastador. Se o Corolário de 1904, foi expressão política, objetiva e direta, da imensa acumulação de forças, econômicas, comerciais e militares, que os Estados Unidos amealharam ao longo do século 19, absolutamente desproporcionais em relação aos seus vizinhos latino-americanos, o Corolário de 2002, o sumário da estratégia a ser seguida por George W. Bush, também o é, resulta da mesma lógica.
Ao consagrarem-se no após-Guerra Fria como uma solitária hiperpotência, os Estados Unidos com uma economia responsável por ¼ da do planeta, o Resto do Mundo tornou-se-lhes irrelevante. Turcões ou bérberes, uns chinelões de toalha na cabeça , querendo ameaçá-los de cimitarra na mão.
Todos são súditos
Se Theodor Roosevelt, o caubói de Dakota, não tinha a mínima inclinação em consultar os daggos - como ele chamava os latino-americanos, a quem pessoalmente desprezava -, para decidir-se a fazer ou não uma intervenção armada, por que supor-se que o texano George W.Bush (ungido pela fé vingadora da tragédia de 11 de setembro), armado com o poder de vida e de morte sobre o universo inteiro, levaria em consideração, ainda que por algum tempo, a opinião de franceses, de alemães, de russos ou de chineses? A sua vista, neste encontro síntese do big stick com o big buck, (poder militar com o financeiro), estes países todos do globo, aquiescendo ou não, tornaram-se súditos do Grande Império. Aos olhos da águia americana tudo virou uma imensa reserva comanche, tudo lhes parece pequeno e desprezível.