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Perón e o expansionismo argentino

Getúlio Vargas e Juan Domingo Perón, um ditador civil o outro de origem militar, tinham muito em comum. Além de dominarem por largos anos os dois maiores países da América do Sul, o Brasil e a Argentina, eram providos de carisma e consagraram-se como estadistas. Ambos foram impressionantes reformadores sociais, reconhecendo a importância dos sindicatos e das organizações operárias em geral, aproximando-as do convívio com o poder. Todavia, um deles, Getúlio Vargas nunca fez questão de aproximar-se do outro, de Juan Domingo Perón, mantendo com ele relações frias.

O Manifesto Secreto do GOU

"A República Argentina deveria abarcar...a Republica do Uruguai, a Bolívia e a parte meridional do Brasil (....)Lembrem-se que o nosso propósito deve ser recuperar o que nos pertence (...) Se os norte-americanos quiserem ser os senhores do Norte, nós seremos os senhores do Sul."
Prof. L.M. Quintana, ex-secretário das Relações Exteriores, B. Aires, maio de 1947.


As rápidas e arrasadoras vitórias militares das forças do nazi-fascismo nos começos da Segunda Guerra Mundial, provocaram fantasias expansionistas por todas as partes. Na Argentina, em 1943, o redor do coronel Juan Domingo Perón - recém desembarcado de uma estadia na Itália fascista, onde fora adido militar - , logo se formou uma confraria de oficiais do exército com estranhos desígnios: o GOU (Grupo de Oficiais Unidos. Estavam eles imbuídos, de acordo com um Manifesto Secreto, de 3 de maio de 1943, de repetir neste lado do mundo os feitos e conquistas levadas adiante, com espantoso êxito, pelo regime nazista.
Contemplando o mapa sul-americano, eles entenderam ser possível, sob a hegemonia das forças armadas platinas, fazer um movimento de integração forçada dos seus vizinhos, dos uruguaios, chilenos, paraguaios e bolivianos, visto que nenhum deles ainda havia declarado a guerra ao Eixo. No máximo, pressionados com vigor pelos Estados Unidos, haviam rompido relações diplomáticas com a Alemanha e com a Itália. Em nome da Hispanidade, da restauração dos valores do tradicionalismo ibérico, católico, autoritário e antiliberal, Perón, que ainda não estava investido na plenitude do poder, ambicionava vestir as botas do General Juan Manoel Rosas na esperança de vir a restaurar o antigo Vice-Reino do Prata, desmantelado em 1810. Esta Nova Argentina, irradiando-se para muito além das suas fronteiras, seria a sua versão do Terceiro Reich aplicado à América do Sul, onde ele apareceria como uma espécie de Führer dos Pampas.

Osvaldo Aranha e o pan-americanismo

Vargas aliou-se com Roosevelt
De certo modo, a intenção de Perón e do GOU, era uma resposta da clique militar argentina ao governo brasileiro que, por insistência de Oswaldo Aranha, então Ministro das Relações Exteriores, e homem da máxima confiança de Getúlio Vargas, empenhara-se em arrebanhar a maior parte dos países do continente num apoio total aos Estados Unidos. Ao contrário dos argentinos, Oswaldo Aranha, um pan-americanista assumido, entendeu que o ataque japonês a Pearl Harbor, e a subsequente declaração de guerra de Hitler e de Mussolini aos Estados Unidos, era uma agressão a todos os povos do Hemisfério Americano. Por conseguinte, providenciou de imediato a organização de uma conferência no Rio de Janeiro, entre os dias 15 e 28 de janeiro de 1942, com a participação de todos os ministros das relações exteriores das Américas.
Nela, Getúlio Vargas, devidamente orientado pelos Generais Gaspar Dutra e Góes Monteiro, teve o cuidado de alertar os Estados Unidos de que o Brasil somente entraria no conflito ao seu lado se fosse suprido em armamentos e material de guerra condizente. Ponderou também que os possíveis temores da Argentina deveriam ser aplacados, assegurando aos seus governantes, em compromisso assinado, que aquele equipamento não seria voltado contra eles. Era só o que faltava o Brasil abrir um fronte na Europa e ainda um outro nos limites do Rio da Prata.

O Brasil , a Argentina, e a Guerra Mundial

Entrementes, ajudando a incendiar ainda mais paixões patrióticas, os submarinos alemães e italianos punham a pique, em fevereiro de 1942, os mercantes brasileiros “ Buarque” , “ Cebedello”, e mais outros cinco. Fatos que arrastaram, em 22 de agosto daquele ano mesmo, o Brasil para a guerra. A Argentina, que por três vezes trocara os seus generais-presidentes, todavia, não se mexeu. Somente dois anos depois, em 26 de janeiro de 1944, com o desenlace do conflito claramente previsto, ela o fez. Mesmo assim foi uma proclamação de guerra platônica, visto que nenhum canhão ou fuzil argentino disparou contra o Eixo,
Perón, neste meio tempo, após a jornadas de massas de 17 de outubro de 1945, o Dia da Fidelidade, empalmou definitivamente ao poder. Mas a guerra havia findado. A derrota do Eixo fora aplastante, mas significativamente não alterara muito seus planos. Entende-se, pois, dele ter oferecido, por intermédio das embaixadas argentinas e até com auxilio do Vaticano, passaportes e documentos de identidade a oficiais , cientistas e técnicos nazistas Queria uma Argentina potência, importando o engenho alemão. Ainda que fizesse provocações contra ao Chile, guerra mesmo ele não pensava fazer. O desprezo que ele devotava à classe política que o circundava, inclinou-o a imaginar ser provável estender a presença argentina somente disparando pesos de prata, isto é, corrompendo os líderes e deputados da vizinhança. Era tudo uma questão de acertar-se o preço.
Quanto ao Brasil - pressionando a partir do grande gancho geográfico formado pelos países platinos e andinos - , ele esperava abocanhar aos poucos todo o seu interior sem muita luta. O que prestava do Brasil, dizia ele, ficava no litoral. No imenso sertão despovoado só habitavam famintos, gente primitiva que iria beijar-lhe a mão quando ele lhes estendesse um punhado de farinha ou um naco de carne. Restaurava-se, deste modo, não somente o Vice-Reino do Prata como voltava-se aos antigos limites do Tratado de Tordesilhas, de 1493, que dava como espanholas toda a hinterlândia brasileira. Esta foi a razão de Getúlio Vargas, sabedor disso tudo, negar-se em qualquer momento a aproximar-se politicamente de Perón.

    



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