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O Estado Livre do Congo

Stanley em viagem
O Congo, país africano que até os nosso dias vive conflagrado, infelicitado por um sem número de guerras tribais, foi vítima no passado de uma pavorosa experiência de colonização. O rei Leopoldo II da Bélgica formou, em 1876, um empreendimento de exploração econômica, com fachada filantrópica, que, longe de civilizar os nativos da região, como era a sua intenção formal, introduziu práticas ainda mais cruéis entre eles. Obrigado pela opinião pública mundial a desistir do projeto, visto sua impressionante brutalidade, apontado como “inimigo da humanidade” numa carta aberta escrita pelo coronel americano W.Williams, publicada no New York Herald, em 1890, o rei foi constrangido a transferir os seus direitos privados sobre o Congo para o governo do seu próprio país, que ainda o controlou até 1960.

Stanley e Leopoldo II

Leopoldo II, rei dos belgas
Depois de terem-no dado como perdido desde que ele partira, em 1874, de Zanzibar, na costa oriental da África, a noticia correu pelas capitais européias: Henry Stanley, um inglês que era um misto de jornalista, aventureiro e desbravador de matos, chegara são e salvo nos lados opostos do Continente Negro, na costa do Congo. Chegara ao porto de Boma em 1877. Ele ficara famoso, um pouco antes, em 1871, quando encontrara o célebre doutor Livignstone, um sanitarista humanitário que se embrenhara nos matos da África, ao redor do Lago Tanganica, para tratar das doenças dos nativos e era dado como desaparecido. Famoso, visto como herói do colonialismo, Stanley foi contratado em 1878 pelo rei Leopoldo II da Bélgica para um grande missão.
O rei, um bilionário megalomaníaco, dava-se como filantropo. As noticias que Stanley trouxera da bacia do rio Congo o entusiasmara. Era um gigante de água doce de mais de 4 mil quilômetros de extensão, possível de ser dominado. As cachoeiras podiam ser contornadas com engenho e trabalho árduo, não sendo tarefa impossível abrir caminho para empreendimentos civilizatórios. Stanley foi então contratado por U$ 250 mil dólares anuais para tocar as obras. Era bem provável que, dali em diante, missões religiosas, articuladas com algumas vanguardas de exploradores, poderiam fazer alguma coisa pelos nativos, quase todos ainda vivendo na Idade da Pedra. Além disso, Leopoldo II ressentia-se dos belgas não terem sequer um naco do território daquele continente, chamado por ele “ o bolo africano”, partilhado entre portugueses, ingleses, franceses, italianos e tutti quanti,. acreditando que os seus súditos o apoiariam no seu afã de dominar aquela imensa região.

O bolo africano

Para tanto, afim de realizar obras humanitárias impressionantes no Congo recém desbravado, ele convocou para reunirem-se em Bruxelas, em 1876, uma conferencia com especialistas de todas as partes. Fundou-se então a International African Association com o fim de explorar a região e lá fixar alguns albergues para os viajantes que desejassem enfrentar aquelas florestas até então impenetráveis. Para obter o consentimento das demais potências colonialistas, Leopoldo II assegurou-lhes (no Congresso de Berlim de 1884/5, que tratou da partilha da África) que ele não permitiria nenhum favor especial, pois o “livre comércio” era sua palavra de ordem. Aferrando o seu compromisso com a liberdade de exploração, na verdade uma abertura da temporada de caça, denominou a área de Estado Livre do Congo. Como então especificou o ministro belga M.Beernaert: “O Estado, do qual o nosso rei será o soberano, será uma espécie de colônia internacional. Não terá monopólios nem privilégios...bem ao contrário: absoluta liberdade de comércio, liberdade de propriedade, liberdade de navegação..” (1885). Declaração esta que muito satisfez o chanceler alemão Otto von Bismarck, anfitrião do Congresso, que via assim a possibilidade “de todas as nações terem livre acesso ao centro do Continente Africano”.

O terror como forma de administração

O que de fato passou a ocorrer naquele “Estado Livre” entrou para ao anais da barbárie e da crueldade humana. Os enviados de Leopoldo, que viajaram como missionários da civilização, uma vanguarda do progresso, sentiram-se como que soltos em meio aquela natureza exuberante. Para eles foi um retorno ao tempos primitivos da humanidade.. Sem rei nem lei por perto, cada agente da companhia belga tornou-se um pequeno tirano, com direito de vida e morte sobre os habitantes. O próprio Stanley adotou um método muito particular de apresentar-se aos chefes tribais, fazendo com que, graças a uma bateria elétrica que mantinha junto ao corpo, ele desse um choque naquele que apertasse sua mão como demonstração de que ele era dotado de poderes sobrenaturais.
Afim de tornarem lucrativo o empreendimento trataram eles, os agentes belgas, de estimular o negocio do marfim e a extração da borracha selvagem. Piquetes armados de nativos de confiança passaram a percorrer as margens do Congo para arrebanhar a mão de obra, pondo o “Sistema” em funcionamento..
Eles que vinham com a tarefa de “vigiar e preservar as populações nativas e prover as suas condições de existência moral e material”, terminaram por introduzir o trabalho escravo em massa, a punição com chibatadas, torturas diversas, e as perversas mutilações de mãos e de pés. Era comum, por divertimento, os homens brancos que andavam nos vapores pelo rio acima, atirarem contra as aldeias ribeirinhas, matando ou afugentando as populações. Rivalizaram-se nas atrocidades dois monstros: os oficiais Leon Rom e Guillaume Van Kerckhoven, que distribuía prêmios a quem lhe trouxesse cabeças humanas durante uma operação militar qualquer, “para que eles se sentissem estimulados em fazer proezas em face do inimigo”. Dupla essa – é Adam Hochschild quem supõe - , que forneceu a inspiração para Joseph Conrad criar o seu agente Kurtz , o personagem de “O coração das trevas”, de 1899. Aquele que, possuído pela ferocidade dos demônios da floresta, acabou - tendo uma choça pagã como templo, “decorado” com estacas de cabeças decepadas - transformado em maligna deidade nativa, “dedicado ao extermínio dos brutos”

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