A orelha de Stalin
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Stalin, morto em 1953
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Último vestígio da tétrica lembrança de Joseph Stalin - ditador da URSS entre 1924 e 1953, ano em que morreu no mês de março -, uma orelha de bronze preservada de uma estátua dele que fora derretida em 1961, desapareceu recentemente de uma pequena exposição sobre história do século 20, realizada no Café Sibylle, em Berlim. Para quem foi um dos políticos mais reproduzidos em pinturas e esculturas, pôsteres e desenhos, de todos os tempos, não deixa de ser impressionante como sua imagem rapidamente apagou-se na memória daqueles que vivem hoje, sejam russos ou não.
Um dia de luto
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Vítimas de Stalin (escultura moderna)
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"Por que dar pontapés?" Perguntei, surpreendido: - "assim o sangue não respinga na nossa túnica. Você pode imaginar quanto trabalho nos teríamos na nossa vida se tivéssemos que limpar o uniforme todo o dia?"
(Diálogo de Jacques Rossi, prisioneiro no Gulag (1937-1956), com um dos guardas)
A imensa multidão de moscovitas parecia não ter mais fim, espalhando-se pelas ruas e avenidas da capital como se fosse um rio escuro, denso e triste. Pela manhã do dia 6 de março de 1953, as rádios anunciaram para a União Soviética inteira que Joseph Stalin, o Pai dos Povos, o Supremo Comandante, estava morto. Numa travessa que facilitava o acesso à cripta onde o corpo dele estava exposto, uma massa de gente se apertava. Queriam passar a diante, queriam despedir-se de Stalin. No meio da rua, porém, atravessando-a, estava um caminhão da policia de segurança. Começaram a serem comprimidos contra a carroçaria dele. Os da frente deram para ser esmagados pela pressão cada vez maior dos que vinham atrás. O sangue logo espirrou manchando os pneus e a carlinga. Do meio do povo, aos berros, ecoavam pedidos para que o motorista tirasse o veículo dali porque senão outros tantos seriam estraçalhados. No alto, armado com um fuzil embalado, um jovem aspirante gritava de volta “ Não posso sair. Tenho ordens! Tenho ordens!”
Medo e reverência a Stalin
Naquele dia terrível, de luto nacional - recordado em detalhes por Eugeny Evtuchenko na sua Autobiografia Precoce (1963) - , Stalin, mesmo morto, ainda que indiretamente, levou junto mais de 500 russos, pateados, asfixiados, arrebentados. A emoção popular era sincera. Quase duas gerações de soviéticos foram criadas no regime dele. Do berçário ao sepultamento, passando pela festa de casamento, qualquer cidadão tinha sempre presente um retrato ou um busto de Stalin, mantendo sempre com ele uma tortuosa relação de temor reverencial e o medo escancarado (os novos camareiros e guardas do Kremlin se urinavam quando tinham que dirigir-se a ele, alguns generais também). Mesmo nos longínquos campos de trabalho escravo, em Vorkuta, em Kolyma, e nas mais de 800 colônias de prisioneiros que formavam o planeta Gulag, os lagerniks, os prisioneiros, que naquela altura chegavam a 2.753.000, choraram com a noticia do falecimento do encarcerador-mór do país.
Dostoiévski tinha razão. Masoquista, a alma russa era vocacionada para o sofrimento, para a auto-humilhação, para cumprir a katorga (a sentença de trabalho forçado) , para adorar, afogada em vodka e lágrimas, a mão que empunhava o rebenque que a espancava. Fora assim, no passado, com Ivan o Terrível, era-o agora com Stalin. Vichinsky, o promotor do regime, responsável pelos Processos de Moscou, de 1937-38, numa confissão a um embaixador polonês, disse que justamente pelo russo ser um tipo desprezível, sujo, preguiçoso e lerdo de cabeça, é que apoiava Stalin sem limites. Somente ele, com uma maldade inquebrantável de déspota oriental, tendo um bloco de gelo no lugar do coração, aço no lugar das mãos, sabia tocar aquela massa, fazê-los construir represas, estradas, industrias e canhões. O único capaz de escravizar sua própria gente, criando infindáveis inimigos em seu meio (de classe, ideológicos, étnicos, traidores , sabotadores, etc.) como pretexto para mandá-los arrebentarem-se, com pá e picareta na mão, na taiga, na tundra ou no gelo, sem notar a ironia de que o regime socialista que viera para abolir a “ alienação do trabalho”, e “ a exploração capitalista”, terminou por reinstituir parcialmente a servidão (que havia sido abolida na Rússia em 1861). Calcula-se que passaram pelos campos do GULAG (Glavnoje Upravlenyije Lagerej), no auge do empreendimento, entre 1937-1953, dez milhões de prisioneiros (afinal, uma maneira imaginativa de acabar com o desemprego). Sem esquecer-se de mencionar a façanha publicitária dele e dos seus seguidores em convencer uma parte considerável da opinião pública, russa e de muitos intelectuais ocidentais, que o seu regime era o “Paraíso dos Trabalhadores”
Stalin, um corpo banido
Nada disso impediu que os soviéticos, ao serem fuzilados aos magotes pelos nazistas na guerra de 1941-45, morrerem gritando “Viva o camarada Stalin!” O fato das praticas brutais dele afetarem a própria essência do que se imaginava ser o socialismo - o direito de punir e de matar quem achasse necessário, que cada aparatchik, um chefete da NKVD, respaldado no artigo 58 do código criminal, passou a exercer -, parece que nunca o abalou.
Por essas e outras é que durante o 22º Congresso do PCURSS, realizado em outubro de 1961, oito anos depois da morte dele, os líderes comunistas acataram uma mensagem da camarada Dora Abramova Lazurkina, vinda diretamente de Lenin, supõe-se que do além. Perante um plenário atento ela disse, em alto e bom som, que Lenin, a quem ela levava no coração, lhe havia dito que era muito “ desagradável ficar perto de Stalin, alguém que tanto mal fizera ao partido”. De imediato aprovou-se a remoção do corpo dele do mausoléu da Praça Vermelha. Não demorou para que todos os retratos e estatuas do outrora todo-poderoso Secretário-Geral fossem destruídos. Em Berlim, ocupada pelos soviéticos, um dos encarregados da tarefa, um alemão convocado para derreter um Stalin de bronze, resolveu guardar a orelha da estátua como relíquia. Um neto dele, recentemente, levou-a para o Café Sybile, na Karl Marx Alle, para uma exposição, local de onde foi roubada no dia 25 de julho. Meio século depois do fim dele nada mais sobrou. Nem a orelha.