EUA e o impacto da Revolução Cubana
A facilidade com que foram removidos governantes latino-americanos não-confiáveis, adeptos de um populismo nacionalista e estatizante, como Arbenz, Vargas e Perón, todos os três depostos entre 1954-55, vistos como não confiáveis pela estratégia geral do Pentágono naquele momento de apogeu da Guerra Fria, tudo parecia assegurar aos Estados Unidos decênios de tranqüilidade e concórdia. No entanto, o seu poder sobre o restante da América estava apenas em vésperas do maior desafio enfrentado na história de suas relações com os países do continente. Momento em que a sua hegemonia deu para ser estridentemente questionada quase que às suas portas.
Surpresa no Caribe
Em janeiro de 1959, um grupo de guerrilheiros liderados por Fidel Castro e seus companheiro de aventuras, o argentino Ernesto Che Guevara, chegou ao poder em Cuba depois de impor uma desmoralizante derrota ao regime pró-norte-americano do ditador Fulgêncio Batista. Rapidamente, as relações entre o novo regime emergido dos altos da Sierra Maestra e o governo de Washington começaram a se deteriorar. O movimento desencadeado por Castro não se contentava apenas em reformar a estrutura política do país mas pretendia realizar uma profunda transformação social, que implicava afetar os históricos interesses norte-americanos investidos na ilha. Castro foi taxado imediatamente de pró-comunista e o governo Eisenhower deu início ao processo de desestabilização do novo governo por meio do Projeto Cuba que recebeu inicialmente uma verba de U$ 13 milhões de dólares. No dia 17 de março de 1960 o Presidente Eisenhower determinou à CIA dar os primeiros passos para a execução da Operação Pluto que implicava no treinamento dos futuros invasores de Cuba. Logo depois de uma visita que Fidel Castro fez ao vice-presidente Richard Nixon em Nova Iorque, ele ordenou aos serviços de segurança norte-americanos que o líder cubano fosse assassinado no mais breve tempo possível. A implantação do bloqueio econômico que se seguiu, logo adotado pelo governo republicano, era o prenúncio da futura invasão militar. Tudo indicava que Fidel Castro e seu regime teria o mesmo destino infausto do de Jacobo Arbenz na Guatemala. Nem o Departamento de Estado nem a CIA perceberam, entretanto, que agora não se tratava de um frágil regime populista, envolvido em suas contradições, mas sim de uma revolução social entrelaçada com um movimento de descolonização que estava em andamento. Uma situação em que uma intervenção norte-americana no cenário cubano serviria muito mais como oxigênio ao regime de Fidel Castro do que como um gás sufocante ou paralisante.
A intervenção norte-americana
Os planos de intervenção armada arquitetados pela CIA foram herdados pelo governo seguinte, o de John F. Kennedy, eleito em 1960, que deu sinal verde para que os referidos projetos prosseguissem.
1 Em abril de 1961, com um surpreendente desembarque na Baía dos Cochinos, na Praia Girón, teve início a invasão de Cuba por forças contra-revolucionárias formadas por ex-integrantes da ditadura de Batista exilados em Miami, na Flórida. A CIA havia organizado uma operação que envolvia a colaboração dos governo de Ydígoras, da Guatemala, e do ditador Anástacio Somoza, da Nicarágua, que acolheram os contra-revolucionários e cederam a eles os campos de treinamento militar para que fossem adestrados.
2O governo norte-americano tentou de início camuflar a extensão do seu envolvimento, atribuindo o desembarque e a luta deflagrada no litoral da ilha como resultado da insatisfação popular que o regime de Fidel Castro havia provocado em amplos setores sociais de Cuba. Com o passar dos dias, para constrangimento cada vez maior de Adlai Stevenson, o embaixador americano na ONU, um intelectual rooseveliano, um homem com um respeitável histórico de defensor das causas liberais e democráticas, foi se revelando a magnitude da participação dos Estados Unidos na preparação e na execução do plano contra-revolucionário. Enquanto isso, Fidel Castro apelando para o sentimento nacional ofendido, mobilizava a população cubana através da convocação das milícias populares ao tempo em que neutralizava as forças direitistas internas. Três dias depois do bombardeio de Havana executado pelos B-26 da CIA, as forças cubanas forçaram 1.180 contra-revolucionários à rendição na Praia Girón.
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1SCHLESINGER Jr. A. Op.cit., p. 237.
2WISE, D; & ROSS, T. Op.cit., p. 22, e segs.
3THOMAS, H. Op.cit., v. 3, p. 1729, e segs.
A era dos tumultos
Na histórica data de 18 de abril de 1961, o líder cubano emergiu como alguém que aplicara a primeira séria derrota aos interesses norte-americanos no continente desde que os Estados Unidos haviam se lançado na conquista da sua hegemonia sobre o Hemisfério Norte do continente na guerra contra o México, em 1846. Pela primeira vez também esses interesses não puderam reverter a seu favor um regime considerado “inconveniente” aos seus desígnios políticos. Impotentes, os norte-americanos tiveram que assistir Fidel Castro ir adiante com sua política de reforma agrária (que feria os interesses dos empreendimentos americanos), e de nacionalizações de outras grandes fábricas norte-americanas. Como observou Richard Morse, a longa paz monroviana havia se encerrado – e a América Latina assistia ao nascimento de uma era dos tumultos, quando guerras civis, lutas guerrilheiras e violentos golpes militares, golpes e contragolpes se sucederam ensangüentando o continente por quase todo o quarto de século seguinte.