EUA, a doutrina da segurança nacional
A situação em que os Estados Unidos se encontraram no após-1945 era inédita. Em apenas três anos de guerra, de 1942 a 1945, derrotadas as forças do Eixo, o mundo praticamente caiu em suas mãos. Tropas e navios americanos encontravam-se espalhados em todos os continentes e singrando por todos os mares. Qualquer menção à volta à antiga posição isolacionista, tão cara a muitos estadistas do país, tornou-se absolutamente irreal. Havia, entretanto, um grande, porém: o enorme poder conquistado na Segunda Guerra pela União Soviética, quando mais de 300 divisões russas ocuparam metade da Europa da época. Uma nova guerra era visível no horizonte, um embate titânico onde os fatores ideológicos, culturais e psicológicos, jogariam um peso formidável. A América Latina simplesmente viu-se então envolvida, simplesmente arrastada, por aqueles novos acontecimentos extraordinários.
O incrível poder dos Estados Unidos
|
|
H. Truman (fala ao Congresso, 12 de março de 1947)
|
“Eu não acredito que a União Soviética deseje a guerra. O que ela deseja são os frutos da guerra e a infinita expansão do seu poder e doutrina”.
W. Churchill (discurso em Fulton, Missouri, 5 de março de 1946).
“Eu acredito que a política dos Estados Unidos deve ser a de apoiar os povos livres que estão resistindo a tentativas de subjugação por minorias armadas ou pressões externas”.
Com a morte de Franklin D. Roosevelt sepultou-se não apenas a política de coexistência pacífica com a URSS como também a da Boa Vizinhança, carro-chefe da diplomacia norte-americana nos anos trinta. A América Latina não tardaria em sentir os efeitos desta alteração, pois seria virtualmente enquadrada nos esforços da recém declarada guerra fria.
Encerrada a II Guerra em setembro de 1945, a vitória transformou os Estados Unidos em senhores do mundo. Seus principais adversários, a Alemanha e o Japão, estavam completamente arruinados, tendo suas cidades destruídas e seus parques industriais transformados em sucatas incineradas. A Inglaterra e França, seus aliados ocidentais, tinham amargado bombardeios e ocupação, levando seus sistemas fabris ao mais completo esgotamento. A URSS, então aliada e logo inimiga ideológica, apresentava um quadro de destruição ainda mais dramático: mais de vinte milhões de mortos, setenta mil cidades e aldeias destruídas e boa parte das indústrias desmanteladas. Neste doloroso mundo, os Estados Unidos eram um oásis. Graças à guerra ter sido travada longe de suas fronteiras, a população civil americana nada sofreu e suas fábricas e cidades crescerem sem temerem bombardeios de destruição, fazendo com que ao término do conflito pudessem produzir mais da metade da riqueza industrial do mundo. Como um acréscimo definitivo à superioridade material, os Estados Unidos detinham o monopólio atômico e uma presença aérea e naval de poder incontestável.
Poucas vezes na história um país havia conseguido reunir tantos fatores favoráveis ao exercício do poder imperial. O globo, ainda que dilacerado e arruinado pela guerra, caíra em seus braços.
Do isolacionismo ao globalismo
A ascensão ao poder do até então vice-presidente Harry Truman deu-se num momento de notável transcendência histórica. Os Estados Unidos deixavam definitivamente a política do isolacionismo e adotavam a do globalismo. Agora já não eram uma potência entre as demais, mas a única potência com poder de vida e morte sobre o restante da humanidade, capaz de com um só artefato atômico varrer do mapa a quem lhe fosse inconveniente.
Consciente do extraordinário poder acumulado pela nação americana e do fantástico fator de desequilíbrio representado pela posse de bombas nucleares, tornou-se lógico para o novo presidente que os Estados Unidos não deveriam “partilhar responsabilidades” com seus aliados, especialmente com a URSS, mas sim dirigir o mundo, moldando-o à sua vontade e à sua lei.
Coligação contra a Cortina de Ferro
|
|
Cartaz americano: sacrifício pela liberdade
|
Depois de um convívio forçado com socialistas, comunistas, provocado pela agressão do Eixo, as forças de partida foi dado pelo célebre discurso pronunciado pelo ex-primeiro-ministro britânico, Winston Churchill em Fulton, Missouri em 1946, quando apontou a URSS como o novo e mais terrível inimigo da coligação anglo-saxã, depositária dos valores ocidentais. Neste mesmo ano, apressava-se a elaboração da Doutrina de Segurança Nacional, que passaria a orientar as relações da grande potência com o resto do mundo. Em março de 1947, o presidente norte-americano anunciava a nova doutrina: os Estados Unidos estavam dispostos a “conter” toda e qualquer manifestação de avanço do comunismo internacional, intervindo militarmente para garantir governos amigos ameaçados. Paralelamente, foi lançado o Plano Marshall de recuperação das economias combalidas pelos efeitos da guerra e que alinhava o mundo capitalista à hegemonia dos Estados Unidos
1. Além da aprovação da mensagem de Truman e do projeto de Marshall, que foram os dois pilares da Doutrina de Segurança Nacional, o Congresso americano, aprovou em 1947 a Lei de Segurança Nacional e a formação do Departamento de Defesa, que passaria a coordenar os esforços nacionais para a guerra fria
2.
Dali em diante, seus interesses estratégicos abarcariam os mais remotos cantos da Terra. Qualquer perturbação social ou política passaria a afetá-los. A mais modesta intenção de adotar uma política de nacionalização de empresas estrangeiras ou medidas estatizantes eram atos efetivos de provocação aos interesses nacionais dos Estados Unidos. Qualquer sublevação contra regimes colaboracionistas seria interpretado como uma agressão indireta à Segurança Nacional dos americanos.
1 GRAEBNER, N. A. Cold War Diplomacy (1945-60). Princeton, Van Nostrand, 1962, p. 144 e segs.
2AMBROSE, S. E. Rise to Globalism. Nova York: Penguin, 1979, p. 138.