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EUA, a doutrina da segurança nacional - Atritos com o populismo

Graças ao envolvimento norte-americano na Guerra da Coréia (1950-1953), algumas repúblicas latino-americanas puderam momentaneamente adotar políticas reformistas que favoreciam os trabalhadores assim como promover medidas de emancipação econômica em relação aos Estados Unidos. Bastou, no entanto, a administração Eisenhower negociar um acordo em torno do Paralelo 38, que pôs fim à guerra na península asiática, para que a diplomacia americana começasse a se apressar com o objetivo de derrubar estes regimes.

Na Guatemala deu-se à deposição do presidente Jacobo Arbenz por meio de uma invasão militar, coordenada pela CIA e chefiada pelo coronel Castillo Armas.11 Arbenz havia promulgado em junho de 1952 um projeto de reforma agrária que incluíra a expropriação de 90 mil hectares de terras não utilizadas pela United Fruits Co., a maior empresa norte-americana da região.

“Por si mesma”, comentou Eisenhower em suas férias Memórias, “a expropriação não é, naturalmente, prova de comunismo” mas seus atos (de Arbenz) “permitiram bem depressa suspeitar se ele um fantoche manipulado pelos comunistas”.12 O presidente dos Estados Unidos afirmava a integral adoção da política do seu secretário de Estado, J. F. Dulles, segundo a qual qualquer ameaça aos interesses materiais de empresas norte-americanas afetaria a segurança e o prestígio da livre iniciativa no mundo. A queda de Arbens ocorreu em julho de 1954, fazendo com que a Guatemala dali em diante, ao longo de mais de quarenta anos, fosse vítima de violentas convulsões, geralmente provocadas pelo terrorismo de Estado.
Jacobo Arbenz, presidente da Guatemala, acusado de ser pró-comunista.

11WISE, D & ROSS, T. O Governo invisível. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, p. 174 e segs.
12JULIEN, C. Op.cit., p. 351.

A queda de Vargas e de Perón

Vargas e Roosevelt em 1942
Estimuladas pela enérgica ação americana naquele pequeno país da América Central, as forças antipopulistas brasileiras, particularmente a liderada por Carlos Lacerda, passaram a assediar o governo do presidente Getúlio Vargas, a quem não perdoavam a criação da Petrobrás, ocorrida em outubro de 1953. O velho líder populista terminou por ver-se soterrado por uma violenta e incessante campanha feita pelos principais periódicos e cadeias de rádio e televisão ( na época exclusiva da TV-Tupi dos Diários Associados) articulada pela oligarquia, sendo obrigado a terminar o seu mandato por meio de um traumático suicídio, ocorrido na manhã de 24 de agosto de 1954. Denunciando a ação do imperialismo em sua Carta-testamento, Vargas conseguiu com sua trágica morte desencadear as maiores manifestações antiamericanas da história do Brasil, momento quando multidões furiosas atacavam empresas e consulados ianques por todo o país.13 Restava, ainda, Juan Domingo Perón, chefe do justicialismo argentino, que foi deposto no inverno de 1955, após amarga desavença com a conservadora Igreja Católica. A cisão entre os peronistas e o clero serviu de pretexto para as Forças Armadas coordenarem um sangrento golpe que afastou Perón e seus seguidores por dezoito anos de poder.

Nestes três casos de remoção de “quistos populistas” inconvenientes e de pouca confiabilidade, deve-se destacar a maneira diferenciada com que a diplomacia norte-americana agiu. Na Guatemala a ação desestabilizadora foi quase que direta, sem haver maiores preocupações em encobrir as operações armadas das forças de Castillo Armas.

O mesmo não pode ser afirmado quando se trata das grandes nações sul-americanas como o Brasil e a Argentina. Neste caso seria inadmissível uma intervenção aberta e direta, pois os riscos políticos seriam incalculáveis. Mas é inegável que a firme posição dos Estados Unidos em não admitir nem mesmo as modestas reformas de Arbens serviu como estímulo aos poderosos grupos conservadores para liderarem os golpes contra Getúlio Vargas e Juan Domingo Perón.

13BANDEIRA, M. Op.cit., p. 364.

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