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A Comuna de Paris
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Proclamação da Comuna de Paris, 21 de março de 1871
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Durante 73 dias, a cidade sitiada, dominada pela Comuna mobilizada para a guerra, enfrentou o exército. Brigadas de operários e suas mulheres, as petroleuses, numa resistência desesperada, deslocavam-se pelas avenidas e ruas incendiando os prédios públicos. Num repente, os miseráveis que Victor Hugo imortalizara no seu gigantesco romance (Les misèrables, 3 volumes com 2.800 páginas, que, desde 1862, vendera sete milhões de exemplares!), rebelados, tentavam "tomar o céu de assalto". Milhares de Jeans Valjeans, na companhia das Fantines e das pequenas Cosettes, assistidas pelo moleque Gavroche, um minúsculo herói das barricadas - personagens da grande epopéia literária do proletariado francês -, haviam ocupado as ruas de Paris preparando-se para o embate final. O poeta, ainda na Bélgica, impotente, deprimiu-se. Logo ele que tanto apostara nos Estados Unidos da Europa. Não só alemães lutaram contra franceses, como esses, agora, brigavam entre si.
Brutal repressão
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Casal burguês faz mofa do communard morto
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Acampados nos arredores da capital, estupefatos, os soldados prussianos viam o abrasar dos casarões e dos palácios ao som surdo das canhonadas e dos gritos de horror dos fuzilados. A repressão do exército francês foi brutal. Do dia 22 ao 28 de maio, a matança começada em Montmarte, tão acertadamente chamado de o Monte dos Mártires, e encerrando-se no muro dos federados do cemitério père Lachaise, fizera com que 30 mil corpos de trabalhadores fossem trespassados pelas balas dos subordinados do general Mac-Mahon. Nesse holocausto feito em nome da ordem social, juntaram-se às tropas e aos burgueses, levas de tipos criminosos que saíram dos bueiros para virem apedrejar e mofar dos caídos. Em Bruxelas, Victor Hugo agiu para que acolhessem os desgraçados que sobreviveram aos massacres e aos desterros, do que ele chamou de L´année terrible. As autoridades locais, ignorando seus apelos por tolerância para com os communards, fizeram com que ele fugisse para o pequeno Luxemburgo. Clemência que ele continuou reclamando quando do seu retorno á França e indicado para a Câmara Alta, em 1873.
Glória imorredoura
Por essas e outras é que 700 mil pessoas desfilaram em frente a sua residência na avenida Eylau (hoje Victor Hugo) ao ele completar 79 anos, em 26 de fevereiro de 1881. Nem Napoleão vira tanto povo assim do seu palanque. A sua casa tornou-se local de romaria de gente do mundo inteiro. Até um poema sobre o Brasil ele compôs para o imperador D. Pedro II. Nada em matéria de multidão equiparou-se ao seu enterro quando, no dia 31 de maio de 1885 (ele falecera no dia 22), partindo do Arco do Triunfo onde seu modesto ataúde estava exposto, um milhão de franceses se irmanaram pelos Campos Elísios para levar o féretro de Père Hugo até o Panteão. Nos seus 70 anos de atividade ele fizera de tudo: foi par da França, membro da Academia de Letras, deputado, exilado político, militante anti-bonapartista, integrante do senado e o escritor mais famoso e mais popular das letras francesas em todos os tempos. Além de célebre defensor da abolição da pena capital e emérito ativista das causas populares. Dizem que no delírio que antecedeu a morte, ele gritou "esta é a luta entre o dia e a noite". Pode ter sido a chegada da noite para ele, mas para a França, que agora celebra o bicentenário do nascimento do seu maior poeta, ocorrido em Besançon em 26 de fevereiro de 1802, Victor Hugo vai ser sempre a luz do dia.
O fé no poder do espírito
L'histoire véridique, l'histoire vraie, l'histoire définitive, [...]
tiendra moins compte des grands coups de sabre que des grands coups d'idée. (...)
Pythagore sera un plus grand événement que Sésostris. (...) étant donnée, comme résultante,
l'augmentation de l'esprit humain, Dante importe plus que Charlemagne,
et Shakespeare importe plus que Charles-Quint.
(A história verídica, a verdadeira história, a história definitiva, dará menos importância aos grandes golpes da espada do que aos grandes lances das idéias. Pitágoras será um acontecimento mais importante do que Sesóstres. ... tendo como resultante o aumento do espírito humano, Dante importa mais do que Carlos Magno, e Shakespeare importa mais do Carlos Quinto).
Victor Hugo, William Shakespeare, 1864
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