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Père Victor Hugo e os Miseráveis


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Victor Hugo (1802-1885)

No mês de fevereiro de 2002, a França inteira prestou homenagens ao seu maior poeta. Victor Hugo, pai ficcional do popularíssimo Quasímodo, o corcunda de Notre-Dame, da cigana Esmeralda e do ex-convicto Jean Valjean, nasceu dois séculos atrás, no dia 26 de fevereiro de 1802. Ele teve a merecida sorte de ver-se consagrado em vida, situação que talvez somente Voltaire, outro titã das letras francesas, morto em 1778, conheceu antes dele. A obra de Hugo é um oceano, abrigando todos os gêneros conhecidos, da poesia ao ensaio cultural, da novela ao panfleto político, do romance ao teatro, nada desconheceu. A produção dele, que se estendeu por 70 anos ininterruptos, até quase a sua morte em 1885, foi impressionante. Dizem que escreveu mais de "um milhão de versos", além de engajar-se de corpo e alma nas lutas políticas e ideológicas do século XIX. Victor Hugo, acima de tudo, foi um colosso moderno.

O retorno à pátria

"Dante uma vez fez um Inferno com a poesia, e eu escrevo sobre o Inferno que é a vida real de nossa época."

Victor Hugo


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Victor Hugo no exílio, em Guernesey (1855-1870)

Viram-no emocionado com a passagem de volta a Paris na mão. No dia 4 de setembro de 1870, Victor Hugo, o gigante das letras francesas que passara quase vinte anos exilado nas ilhas de Jersey e Guernesey, após ter recebido um telegrama em código, retornava à pátria. Nove anos antes, em 1861, ele desprezara a anistia que o imperador Napoleão III (que ele, sarcástico, chamara de Napoleón le petit) oferecera aos que fizeram-lhe oposição à época do golpe de 2 de dezembro de 1851. Mas agora, Napoleão III, derrotado, sitiado pelos prussianos em Sedan, no dia 2 de setembro de 1870, entregara a espada. O Segundo Império se fora e o poeta sentira-se liberto do juramento de só pôr os pés na pátria quando a liberdade tivesse sido plenamente reconquistada: Quand la liberté rentrera, je rentrerai!

O César das letras francesas


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Napoleão III, a quem Hugo chamou de "o pequeno"

No dia seguinte, no 5 de setembro, uma multidão o aguardava na Gare du Nord, a que acolhia os trens que vinham da Bélgica. Foi uma loucura. O carro aberto em que ele estava foi imediatamente cercado. Eufórico, o povo gritava "Viva a República!", "Viva Victor Hugo!". Em minutos, desatrelaram os cavalos e centenas de mãos uniram-se para levar o coche dele adiante. Em pé, emocionado, ele abanava para os transeuntes. Caído o imperador em Sedan, o César das letras francesas recebia os louros nas ruas de Paris. Morto o rei, viva o rei! A sua aparência, mesmo aos 69 anos, impressionava. Victor Hugo era um homem vigoroso, de apetites sensuais e gastronômicos impressionantes. O cabelo e a barba totalmente brancos ressaltavam-lhe ainda mais o olhar e o fronte inteligente. Naquela jornada apoteótica, estimam, ele apertou umas seis mil mãos. Dias depois arrumaram-lhe um escritório nas Tulherias, onde ele, como se fora um deus Olimpo vindo do exílio, recebia as homenagens de Paris inteira. Tratavam-no de père Hugo, pai Hugo!

O clima porém não era bom. A França rendera-se. Oitocentos mil alemães, comandados por von Molke, marchavam para Paris. O governo provisório nas mãos do Comitê de Defesa Nacional, tendo León Gambetta à frente, tentava detê-los. Mas com quem? Paris, por sua vez, agitava-se. O que se ouvia pelas ruas era de que a cidade não iria capitular. A Guarda Nacional, a milícia civil, estava disposta a dar armas ao povo. Victor Hugo, eleito para a assembléia nacional, não demorou a renunciar porque não podia por sua assinatura junto a de Thiers, o ministro provisório que ajustara um tratado de submissão. Entrementes morre-lhe Charles, o filho mais velho. Exausto, Victor Hugo retira-se para Bruxelas. Então deu-se a catástrofe. As tropas do governo de Versalhes, nas mãos de Thiers, receberam ordens no dia 18 de março de 1871 de entrar em Paris e desarmar a multidão. Foi mexer num vespeiro.





 
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