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Viajantes míticos



Enéias carrega seu pai Anquises na fuga de Tróia

A Eneida

"Ele muito sofreu em terra e no mar...também guerreou e muito padeceu para fundar Lavínio e transportar ao Lácio os seus Penates. Essa foi a origem da raça latina e dos albanos, nossos ancestrais, e das muralhas da excelsa Roma" - Virgílio - A Eneida, livro I

Tendo atrás de si a visão da destruição de Tróia, onde longo rolos de fumaça erguiam-se aos céus, misturados aos gritos dos infelizes que eram trespassados pelo bronze das armas gregas, o nobre Enéias escapara com vida da infeliz cidade por uma das suas seis portas carregando nas costas o seu velho pai Anquises, tendo seu filho, um menino ainda, preso pela mão. Seu coração dilacerara-se. Perdera a pátria, o lar e a mulher, a bela Cleusa. Atrás deles abalavam-se outros troianos sobreviventes. Enéias marchou com eles bem para o sul da Frigia, para o Monte Ida, que se ergue enfrente ao Golfo Adramitium, onde tratou de construir uma pequena flotilha para por-se a salvo do furor dos vencedores. Depois de dez anos de cerco, a grande Tróia afinal havia sucumbido. Um cavalo de madeira, deixado em frente ao seu portão principal pelo ardiloso Ulisses, foi introduzido na cidade, carregado com um troféu de guerra. A noite, da sua barriga saíram os gregos e, em pouco tempo, tudo estava perdido.


Troianos arrastam o cavalo de madeira para a sua cidade

O início da aventura de Enéias: terminada a tarefa, aprontadas as naus, Enéias ordenou o embarque com destino à Trácia em busca de uma nova pátria. Longe porém de encontrar o tão ambicionado sitio de paz, ali era o começo da grande aventura, cheia de imprevistos e assombros, que iria conduzir o herói troiano a lançar as sementes do domínio romano sobre o mundo conhecido. A Trácia foi uma frustração. Enéias decidiu-se então consultar o oráculo de Delfos, onde o próprio Febo Apolo profetizou-lhe um futuro prodigioso, desde que "procurassem a mãe. Ali a casa de Enéías reinará sobre toda a região, e reinarão os filhos de seus filhos e os que deles nascerem." Em seguida porém, a tripulação da pequena esquadra deparou-se com uma turba das terríveis harpias ("aves com rosto de mulher, um ventre que solta um fluxo asqueroso, mãos em forma de garras, faces sempre pálidas de fome"), que lá do céu, grasnando, lhes roubou o alimento. Celeno, uma delas, lançou-lhes um mau agouro, predizendo-lhes "fome terrível" que os faria "roer e devorar as vossas mesas". E de fato assim bem mais tarde se deu. Ao rumarem para Itália, a terra prometida anunciada nas profecias, os sofridos troianos, peregrinos do mar, atraíram os furores dos ventos.


Oráculo de Delfos, que predisse o futuro grandioso de Enéias

Juno e Netuno: pegos em alto mar em meio a um redemoinho de tufões, seis navios dos doze que os troianos tinham logo afundaram, levando consigo as tripulações inteiras. Era uma maldade da deusa Juno, a esposa-irmã de Zeus quem deles tinha ódio. Ela mancomunara-se com o Eólio, o rei dos ventos, para impedir que os troianos arribassem nas costas da Itália. Açoitados de todos os lados, nauseados pela violência da tempestade, os troianos não sabiam mais a quem apelar. Foi então que Netuno, o deus do mar, decidiu-se por um basta naquilo. Enfurecido com a intromissão de Eólio nas suas águas, ordenou aos ventos que dessem a volta e se deixassem novamente se aprisionar nas cavernas do seu rei.

Júpiter intervém por Enéias: entrementes, no Olimpo, o todo-poderoso Júpiter, atendendo aos reclamos da sua filha Vênus, além de tornar a assegurar a ela que Enéias realmente seria o fundador de uma nova estirpe de grandes guerreiros, como ele certa vez o designara, ordenou a um mensageiro que fosse até a cidade de Cartago, na Líbia, lugar não muito distante de onde os troianos haviam naufragado, com a missão de fazer com que a bela rainha Dido, a viúva de Siqueu, em breve os acolhesse. E assim se deu.


A rainha Dido hospeda Enéias e se apaixona por ele

Dido e Enéias: atendendo as determinações olímpicas, Dido revelou-se uma magnífica hospedeira. Acumulando Enéias de regalos, de vinhos finos e raros acepipes, fez com que ele lhe narrasse como afinal ele viera parar ali, na costa africana, tão longe de Tróia: "Vamos, meu hóspede", disse ela, "conta-nos desde o início as insídias dos gregos e as desventuras do teu povo e as tuas peripécias, pois já há sete anos vagueias por todas as terras e todos os mares".

O herói não faz de rogado, relatando à bela rainha as peripécias nefastas por que ele e sua gente passara. Sua crônica recuou até os tempos da Guerra de Tróia, onde ele lastimou a imprudência dos troianos em terem recolhido para dentro das suas muralhas o cavalo maldito. Durante esses encontros Dido deixou-se fascinar pelo belo Enéias, atingida que fora pelo dardo de Cupido, filho de Vênus. Mas o herói tem uma tarefa a cumprir, governar no futuro a Itália "grávida de impérios e a bradar por guerras", e assegurar ao seu filho Ascânio um reino a herdar, não pode pois corresponder ao amor que a rainha lhe devotou.

O desembarque na Itália: refeito dos estragos do naufrágio, Enéias retoma a rota em direção à Itália, saindo ao amanhecer do porto de Cartago, para dar continuidade ao seu destino grandioso. Dido desespera-se. Não podendo mais viver sem o troiano, num gesto impensado mata-se com a espada que Enéias lhe deixara, não sem antes predizer, ressentida, que as cidades de Cartago e a futura Roma que está para nascer, se tornarão inimigas mortais pois "nenhuma amizade ou aliança" será possível entre elas. Enéias enquanto isso lança os ferros no litoral italiano. Em Cume na Campânia ele é instado, depois de consultar Sibila, a descer ao Reino dos Mortos, onde, entre outros heróis da sua terra, reencontra o seu pai Anquises. Este lhe revela o magnífico porvir, mostrando ao filho uma plêiade de varões ilustres que irão surgir no futuro e que imortalizarão o nome de Roma.


Enéias na guerra pela conquista do Lácio

A vitória final de Enéias: ao subir no monte Tibre, Enéias reconhece aquele paisagem como a Terra Prometida. De imediato alia-se ao rei Latino, mas novamente a deusa Juno não lhe dá sossego. Missiona para imiscuir-se entre eles, semeando discórdia, o demônio Aleto. O pacto matrimonial entre Enéias e a princesa latina Lavinia é desfeito e várias tribos latinas pegam em armas para expulsar os troianos. Seguem-se batalhas terríveis até que Enéias, num combate singular, destroça à espadaços o príncipe latino Rutulian Turnus, o principal entrave a que a profecia se realize. Enéias então vitorioso, assegura à sua descendência o domínio da região do Lácio, civilizando e dando leis e instituições estáveis aos povos selvagens da vizinhança. área onde algumas gerações adiante nascerão os gêmeos Remo e Rômulo, este o mítico fundador de Roma.

Literatura

Ao contrário da Ilíada e da Odisséia, que originaram-se de uma tradição oral sem data sabida ou reconhecida, o relato das aventuras de Enéias resultou da criação do poeta romano Virgílio (70 a .C. - 19 d.C.), que compôs o grande épico com a intenção de enaltecer o mítico passado da Roma gloriosa, governada na época dele por Otávio Augusto.

A Eneida, começada ao redor do ano de 30 a.C., provavelmente estimulada pelo imperador Otávio Augusto, divide-se em duas partes bem distintas. Na primeira, ela inspira-se na Odisséia, com sua preocupação em descrever as atribulações sofridas por Enéias desde sua partida de Tróia em direção à Itália. Na segunda lembra a Ilíada com a ênfase nos relatos das batalhas que conduziram Enéias à vitória final sobre seus inimigos. É pois na primeira parte que Virgílio rende o seu tributo às grande aventuras náuticas.

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