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Viajantes míticos
A Odisséia
"Canta para mim, ó Musa, o varão industrioso que, depois de haver saqueado a cidadela sagrada de Tróia, vagueou errante por inúmeras regiões, visitou cidades e conheceu o espírito de tantos homens; o varão que sobre o mar sofreu em, seu íntimo tormentos sem conta, lutando por sua vida e pelo regresso dos companheiros." - Homero - Odisséia, Rapsódia I
O jovem príncipe Telêmaco, atormentado pela longa ausência do seu pai Ulisses(Odisseu para os gregos), o desaparecido Rei de Ítaca, resolveu sair em busca dele. Além de saudoso, ele estava profundamente insatisfeito com o assédio que os pretendentes faziam à sua mãe, Penélope, a fiel esposa do herói ausente. Somente a volta do pai poria fim aquele martírio.
Saiu-se então em busca dos velhos companheiros do pai, para saber se algum deles tinha noticia do seu paradeiro. Se pelo menos sabiam se o pai ainda estava vivo. O rapaz foi recebido com muita festa por Menelau, o Rei de Esparta e marido da bela Helena, cujo rapto, no passado, provocara a Guerra de Tróia. Menelau dá esperanças ao rapaz ao lhe dizer que seu pai ainda estava vivo, mas preso numa ilha pela ninfa Calipso.
A punição dos vencedores de Tróia: a Odisséia, o relato feito por Homero das façanhas de Ulisses em seu retorno à ilha de Ítaca, é uma continuação da Ilíada, o grande poema épico que relata o cerco da cidade de Tróia. Para recuperar Helena, raptada pelo príncipe Páris, os chefes gregos (69 príncipes das várias nações, com 1.186 barcos, carregando neles 50 mil guerreiros), mantiveram a cidade do Rei Príamo num sitio de dez anos. Ao conseguirem finalmente tomar a cidade, submeteram-na a um impiedoso saque e a incendiaram. Com isso insultaram Possêidon, o deus do mar, que a protegia. Desde então a desgraça abateu-se sobre muitos dos comandantes gregos.
O jovem herói Aquiles já havia morrido antes, atingido por um dardo envenenado; Ajax, o destemido guerreiro, matou-se. O pior aconteceria com Agamemnon, o comandante-supremo da expedição. Quando retornou para casa, ele foi assassinado à traição por sua esposa Cliptemnestra e Egisto, o amante dela.
Ulisses, por ser o responsável pelo estratagema do cavalo de pau (que os troianos pensaram ser um presente e que ingenuamente o trouxeram para dentro das muralhas, decretando o fim da cidade), foi condenado a vagar pelos mares indefinidamente, sem jamais poder a voltar a ver Penélope, o seu filho Telêmaco e o seu pai Laertes.
As façanhas de Ulisses: marinheiro sem porto e sem destino, desde então mil aventuras o aguardavam. O atributo principal dele, que lhe permitiu sobreviver enquanto os demais iam perecendo um a um, era ser dotado de astúcia, de esperteza, e outras artimanhas. Graças a isso Ulisses salvou-se das armadilhas e embustes que deuses, gigantes antropófagos, feiticeiras e ninfas, lhe prepararam. Uma das mais conhecidas foi quando ele e seus companheiros de jornada foram capturados pelo disforme Polifemo, um dos ciclopes, "homens soberbos e sem leis", um devorador de carne humana que tinha um olho só (uma antiga metáfora do Vulcão). Ulisses preso na caverna do monstro, consegue embriagá-lo com um vinho que ele preparou. Entregue ao sono, o ciclope teve seu olho vazado por um enorme chuço incandescente, permitindo a fuga de todos eles.
 Ulisses desafiando o rochedo de Caribdes |
Lotófagos e antropófagos: um tempo antes, levados por um forte vento, Ulisses e os seus haviam dado nas costas da Terra dos Lotófagos (provavelmente na Líbia). Os habitantes os receberam com um fruto dulcíssimo, o loto, mas que fazia as pessoas perderem a memória, condenando-se a ali permanecerem para sempre. Ulisses os tirou a força e os amarrou aos bancos do barco, dando logo partida aos barcos.
Seus companheiros, mais adiante, infelizmente não escaparam da sanha dos Lestrigões, um povo de canibais gigantescos, cujo rei Antífanes ordenou que seus descomunais súditos jogassem enormes pedras sobre os barcos ancorados e, em seguida, "fisgando os homens, como se fossem peixes, levaram-nos para o seu ignóbil repasto." Dos doze barcos, só um salvou-se, o de Ulisses.
Entre os mortos, as sereias, os rochedos fatais, e as vacas de Hélio: retomada a viagem, chegando à terra dos Cimérios, o herói passou por uma experiência. Completadas as libações, Ulisses desceu ao Hades, baixou ao mundo dos mortos, onde reencontrou-se com seus camaradas da Guerra de Tróia, com Agamemnon e com Aquiles, que lhe confessou preferir "trabalhar como servo da gleba, às ordens de outrem, de um homem sem patrimônio e de parcos recursos, do que reinar sobre os mortos, que já nada são." De volta à superfície, navegando em seguida pelo Rio Oceano, Ulisses chegou à ilha das Sereias. Curioso em escutar-lhes o embriagador canto, mas temeroso em deixar-se morrer por ele, ele ordenou à tripulação do barco que o amarrassem no mastro, enquanto os demais tapariam seus ouvidos com cera. Não demorou para que das rochas não muito distantes chegasse o som harmonioso e sedutor das sereias: "Vem aqui, decantado Ulisses, ilustre glória dos Aqueus; detém tua nau, para escutares a nossa voz. Jamais alguém por aqui passou em naus escura, que não ouvisse a voz de agradáveis sons que sai de nossos lábios..." - (Odisséia, rapsódia XII)
 Ulisses cegando o cíclope Polifeno |
Ulisses, implorou, debateu-se, ordenou que o libertassem, tudo em vão. Não o soltaram. Libertos da tentação das perigosas ninfas do mar, mais adiante os tripulantes da nau restante tiveram que enfrentar os dois grande rochedos Cila e Caribdes que se divertiam açoitando-os com vagalhões e ventos cortantes que, num lancinante espetáculo, arrastaram seis remadores para as profundezas das águas salgadas. Mal escaparam dos malditos escolhos, cometeram a temeridade, contra os apelos de Ulisses, de saciarem a fome assaltando o curral da vacas sagradas na ilha de Hélio Hipérion. Quando, enfarados, estavam de volta ao mar, os deuses furiosos os submeteram a um suplicio enviando sobre eles um borrascoso turbilhão, onde os ventos Zéfiro e Noto se alternavam em afligir a vida deles a bordo. O naufrágio foi inevitável. Ulisses sobreviveu por dez dias agarrado nos destroços, até que as ondas o carregaram para a ilha da bela ninfa Calipso, a imortal filha de Atlas que o acolheu e reteve por sete anos.
Ulisses perdoado: então, passados esse anos todos, numa assembléia dos deuses olímpios, a divina Atena lançou-se na defesa de Ulisses. Chegara a hora, disse a filha de Zeus, de cessar o castigo. O herói deveria ser auxiliado. Zeus então ordenou que Hermes, o mensageiro, avisasse a ninfa para liberar Ulisses que iniciaria o regresso ao lar cavalgando uma simples jangada, "porque", disse o deus supremo, "seu destino é que reveja os amigos e volte de novo a seu palácio de elevado teto e à terra pátria". (Odisséia, rapsódia V). Aos pretendentes que enchiam as salas da morada de Penélope e devoravam o patrimônio do herói ausente, os deuses reservaram um destino cruel, pois Ulisses os matou a todos.
 Ulisses tentado pelas sereias |
Literatura
Estima-se que a Ilíada (de Ílion, Tróia) e a Odisséia tenham aparecido, a primeira ao redor dos anos 750-725 a .C.; a segunda entre os anos de 743-713 a. C., ambas escritas pelo poeta cego Homero (que viveu no século 8 a.C.). Era uma história que transitava oralmente de geração em geração e preservada pelos aedos dos tempos arcaicos, até que finalmente mereceu a conversão à escrita. Enquanto uma, a Ilíada, celebra a guerra, a outra, a Odisséia, é um poema do mar, um grande épico sobre os assombros enfrentados pelos marinheiros gregos, sintetizados no mitológico Ulisses, em suas peripécias pelo mundo salgado. A Ilíada com 15.693 versos abrigados em 24 cantos, e a Odisséia com 12.110 contidos em 24 rapsódias, formam o mais extenso poema épico da língua ocidental e, além de educarem por séculos os gregos, foram o ponto referencial de toda a literatura ocidental que se seguiu deste então.
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