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Viajantes míticos



Jasão assume o comando da Argo

Os Argonautas


"Começarei ò Febo, contando as famosas ações dos homens do passado que, a mando do rei Pélias, atravessaram a boca do Ponto, entre as rochas Simplégadas, na veloz Argos em busca do Tosão de Ouro." - Apolônio de Rodes - Argonautica, Livro I, s. I, II 1-4

A razão da aventura: o jovem Jasão, atingindo à maioridade, voltou para Iolcos (hoje Vólcos), a sua pátria na Tessália, situada ao nordeste da Grécia. Vinha reclamar do Rei Pétias, seu tio, que lhe devolvesse o trono outrora usurpado do pai dele. Muito a contragosto, Pétias concordou em transmitir-lhe as dignidades reais desde que Jasão aceitasse um desafio: que trouxesse do Cáucaso o Tosão de Ouro para ofertá-lo ao templo de Zeus Lafitio. Este, o tosão, era uma lã dourada, tosquiada de um carneiro divino, que estava, há tempos, em mãos do Rei Aetes, na longínqua Cólquis (Kutaisi, na Geórgia), na extremidade oriental do Ponto (o atual Mar Negro). Jasão aceitou o repto e mandou que os arautos saíssem pela Grécia a convocar alguns valentes para acompanhá-lo na perigosa missão.

O catálogo dos embarcados: Ao saberem da incrível façanha que se anunciava, e querendo eternizar os seus nomes, 50 heróis se apresentaram na praia de Pégasas. Ali, Argos, o mestre-carpinteiro, dava formas ao barco mágico. Desde então, a tripulação foi chamada de os argonautas, "os marinheiros da nau Argo". E, evidentemente, eles . não se consideravam gente comum. Os gêmeos Castor e Polux, por exemplo, eram peritos em desviar-se de tempestades, enquanto Ídmon era o adivinho oficial. Etálites, o filho de Hermes, foi como o arauto da expedição, enquanto Héracles, um bastardo de Zeus, dadas as suas dimensões, era um gigante, serviria para impor respeito aos inimigos. A deusa Atena, intervindo nos rumos da aventura, dotou Tifis da arte de navegar, fazendo-o o piloto da nau Argos, enquanto o músico Orfeu subiu a bordo para dar ritmo as remadas e, graças a sua lira e a sua voz divina, afastar os malefícios dos cantos das sereias que por ventura encontrassem pelo caminho.


O ataque das hidras

O roteiro da ida: Içadas as velas, soltas as amarras, Jasão ordenou a Tifis que apontasse a proa em direção ao Levante. A caminho da Ásia, cruzaram o Egeu em direção ao Helesponto. A primeira parada para refazerem-se deu-se na ilha de Lemnos, onde encontraram um reino de mulheres que haviam matado seus maridos e pais. Os argonautas, na sua curta estadia, deixaram-nas grávidas e, reembarcando, conseguiram a proeza de traspassar as Simplégadas. Essas eram rochas móveis que impediam, com seus repentinos choques, que os barcos, passando por elas, atingissem as águas do Ponto. Em seguida, os argonautas foram atacados pelas Harpias, monstros alados que desprenderam-se dos céus para vir atormentá-los.. Felizmente elas foram espantadas por Zetes e Calais, os filhos de Bóreas, o vento. A tudo, pois, superaram. Finalmente, navegando sempre perto da costa, chegaram ao Reino de Cólquis.


Jasão enfrenta os touros de chifres de bronze
Ali, novamente, um outro desafio lhes foi lançado. O rei Aetes só aceitava entregar o Tosão de Ouro, se Jasão cumprisse com quatro tarefas impossíveis de serem executadas por um ser humano. Foi então que Jasão passou a contar com o auxílio de Medeia, a filha do rei. A princesa, que se apaixonara pelo herói, era também uma feiticeira e, empregando seus dons extraordinários, conseguiu que Jasão saísse a contento das inacreditáveis tarefas (domar dois touros com pés e patas de bronze que lançavam chamas pelas narinas, atá-los numa charrua de diamantes, arar com ela a terra usando dentes de dragão como sementes, e, finalmente, matar os gigantes que nascessem de tal plantio). Orientado por Medéia, Jasão sabendo que o rei não lhe entregaria por bem o Tosão de Ouro, conseguiu matar o dragão que dava guarda a relíquia sagrada e fugiu com todos os seus companheiros de volta à Grécia.

O retorno à Grécia: o rei Aetes, furioso, com a perda do Tosão e da filha, ordenou que uma esquadra dos seus desse caça aos aventureiros. Seguiu-se então uma intensa perseguição que fez com que os argonautas, rumando agora para o Poente, tivessem que escolher caminhos inimaginados para porem-se ao abrigo da vingança do rei caucasiano. Para tanto, enfiaram-se pela embocadura do Ister (o rio Danúbio), cruzaram o norte da Itália pelo Eridanus (o Rio Pó), e dali saltaram para o rio Ródano, de onde desembocam no Mar Mediterrâneo, nas proximidades da ilha de Elba.

Chegados à ilha da feiticeira Circe, no Mar da Sardenha, ela os purificou, absolvendo-os por terem, durante a fuga, morto e esquartejado o jovem Apsirto, o filho do rei Aetes que os argonautas haviam raptado. Até na Líbia eles foram parar, depois de terem resistido as sereias e sobrevivido a passagem pelos rochedos de Cila e Caribdis. Voltando a proa da Argo em direção ao Egeu, passaram pelas ilhas de Creta, Córcira e Corfú, e, após quatro meses de assombros, desembarcaram de volta a Iolcos. Para eles foi como se tivessem dado uma volta ao mundo.


Jasão partindo para mais um desafio

Literatura

As façanhas dos Argonautas mereceram os versos de Apolônio de Rodes, um mitógrafo e poeta épico que viveu como bibliotecário em Alexandria (de 260 a 247 a.C.) e que escreveu a "Argonáutica"(dividia em 4 livros). Bem antes dele, coube ao célebre lírico Píndaro (522-438 a.C.), imortalizá-los na "Ode Pítica". Os poetas romanos Valério Flaco ("Argonautica"), e Varro Atacino ("Argonautae"), ambos do século I, foram os que verteram os feitos dos heróis gregos para o latim. No teatro, quem imortalizou a feiticeira Medeia foi Eurípides (484-406 a.C.), o último dos grande trágicos áticos, que tornou-a protagonista numa peça, provavelmente apresentada em 431 a.C.

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