As Tribos e a Globalização
O dilema de se abandonar os costumes e as leis locais em favor de algo maior, de instituições bem mais abrangentes e universais, não é de agora, como essa discussão sobre a globalização que presenciamos. Pode-se até dizer que boa parte da teoria política e dos ensaios e tratados que os filósofos gregos escreveram, desde os séculos V e IV a.C., abordaram em larga parte justamente disso: de que modo podemos trafegar do meio acanhado que nos criou para uma instância superior, mais eficaz e cosmopolita, sem que percamos nossa identidade ou fiquemos traumatizados por isso.
O poder das famílias
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"A Providência fez inclinar a balança de quase todos os acontecimentos numa direção, forçando a todos a tomarem o mesmo rumo..."
Políbio - História Universal, séc.II a.C.
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As grandes famílias da Grécia antiga, chamadas de ghénos, eram verdadeiros estados. Conduzidas por um chefe clânico, o basileus ( titulo que mais tarde confundiu-se com o de rei), eram providas com suas próprias regras e costumes, além de cultuarem uma série de deuses, como Démeter, Pósidon, Artémis e Hera, reverenciados no foro do lar. Até moedas próprias, ditas heráldicas, elas tinham, cunhadas com o símbolo do gene a quem serviam. Como não poderia deixar de ser, esses microestados - como os formados pelos genos dos alcmeônidas, dos filaidas e dos cimônidas, famosos e poderosos, que viviam ao redor da Ática antiga -, mantiveram tenaz resistência ao crescimento da polis, as cidades-estados gregas, que começaram a estruturar-se pelos séculos VII e VI a.C. Esta foi a razão de ser de tantas tiranias existirem naquela época. Somente um arconte poderoso, um governante centralizador, dotado de poderes militares excepcionais, como foi o caso de Pisístrato em Atenas, poderia quebrar com os particularismos daqueles clãs que cercavam o mundo urbano.
O plano de Platão
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Trisomatos daemon, o demônio grego de três cabeças
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Foi, com certeza, pensando em diminuir-lhes o poder que Platão, no A República, prescreveu um outro tipo de estrutura familiar. A comunidade ideal, segundo ele, seria composta por gente que se acasalasse num himeneu coletivo, visando apenas a reprodução da espécie, vedando-se-lhes a vida familiar tradicional Se todos se sentissem pais e as mulheres adultas fossem mães, pensou ele, os filhos não seriam de ninguém em particular, pertenceriam à sociedade. Os sentimentos voltados para uma família se diluiriam em função de um bem maior. A fidelidade à política da polis, algo sublime, substituiria os atrasados laços de sangue.
Péricles e o Pártenon
Deste modo, quando Péricles, o líder do partido popular, bem antes de Platão, ordenou no ano de 450 a.C., que os fundos da Liga de Delos ( um tesouro coletivo de mais de 300 cidades gregas, depositado nos cofres de Atenas), fossem usados para construir um complexo de obras , ao encargo do gênio de Fídias e de Calícrates, ele procurava atingir um duplo objetivo: tendo o Pártenon como o seu eixo, queria mostrar ao mundo helênico que Atenas era o centro intelectual, cultural e artístico de todos os gregos, e também suprimir os derradeiros entraves que as poderosas famílias da região da Ática moviam contra a formação de uma comunidade política superior. A cidade-estado, como o próprio Aristóteles enfatizou , era um maravilha constituída pelos homens para alcançar a felicidade, a segurança e o bem-estar. Algo desconhecido pelos que viviam em torno do arcaico e pobre genos.