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O Senhor dos Anéis

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A Sociedade do Anel por Peter Jackson
Aproveitando-se de não haver na história da literatura inglesa nenhuma grande obra épica, desconhecendo-se terem as ilhas britânicas acolhido um Homero ou um Virgílio que contribuísse para que os súditos do reino se orgulhassem de um passado heróico, o escritor J.R.R. Tolkien, falecido em 1973, resolveu tomar a si a missão de ser o fabulista oficial da Grã-Bretanha. Assim, dentro deste projeto, é que nasceu a trilogia do O Senhor dos Anéis, obra de mais de mil páginas, publicadas entre 1954-5, que consagrou-o como um dos grandes narradores de aventuras deste século.

Os contos de Ossian

"Um só anel para governar a todos, um só anel para encontrá-los, um só anel para atraí-los e mantê-los na escuridão"

J.R.R Tolkien, O Senhor dos Anéis, 1954-55

A partir do ano de 1761 o mundo cultural inglês se alvoroçara. Um escritor escocês chamado James Macpherson, até então obscuro, anunciara a descoberta de uma série de antiquíssimos poemas escritos em gaélico atribuídos a um tal de Ossian, um bardo dos Highlands, de valor assombroso. Revistos e reescritos como um épico, editaram-nos com o título de Fragments of Ancient Poetry (Fragmentos de antiga poesia), alcançando um grande sucesso de público. A façanha de Macpherson e dos Ossian tales deu início a um movimento, o Ossianism, que tratava de escavar em terrenos e em baús atrás de relíquias do passado, mobilizando artistas e escritores, movidos por uma apaixonada idealização da idade medieval, para quem os detalhes de veracidade eram irrelevantes. O êxito dos contos foi tamanho que muitos anos depois Napoleão ainda levava o seu exemplar nas campanhas e Goethe disse que neles se abeberou para escrever Werther. A festa, porém, não durou muito.

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Os integrantes da Sociedade do Anel

O dr. Samuel Johnson, o maior filólogo do país, após uma investigação cuidadosa da tal de obra de Ossian, disse que aquilo tudo não passava de fantasia do escritor escocês. Mentor do primeiro Dicionário de Oxford, o de 1755, o velho sábio, agindo como um estraga-prazer, não deixou pedra sobre pedra: os poemas eram uma fraude. Magoados por não terem um épico nacional a celebrar, como os outros povos tinham - um Aquiles, uma Canção de Rolando, um Siegfried ou um Cid el campeador - os ingleses caíram em frustração.

Tolkien, fabulista da Inglaterra

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JRR Tolkien (1892-1973)
Seguramente foi para ocupar o vazio deixado entre os britânicos pelo logro de Ossian, denunciado como um Homero de araque, carentes de histórias suas, autênticas, envolvendo espadas encantadas e feitos miraculosos ocorridos em tempos remotos, é que fez com que, quase dois séculos depois do escândalo, o escritor John Ronald Reuel Tolkien, ou simplesmente J.R.R. Tolkien, assumisse o posto de fabulista oficial. Descendentes de alemães saxões, nascido na África do Sul em 1892, ele decidiu-se a dar aos ingleses uma merecida crônica épica. Apaixonado por palavras raras (o que fez dele assistente lexicográfico do Dicionário Oxford e depois, em 1925, um professor nesta mesma universidade), estudioso do antigo anglo-saxão, do gótico alemão, do gaélico e do finês, ele pôs-se a ler tudo o que havia sobre as lendas dos povos do Norte, germanos e finlandeses (além das velhas Sagas Islandesas, tão admiradas por J.L.Borges, ele leu o Kalevala, um repositório das canções épicas finesas, publicadas em 1835 por Lönnrot, de onde tirou a enigmática frase inscrita no anel de ouro de Sauron). Não só isso, tratou de criar um mundo próprio.

Tolkien tomou-se cada vez mais de amores pelo passado. Colocou em polos opostos a vida dos pequenos hobbits, os divertidos habitantes do shire (condado), que escavavam suas casinhas nos relevos do terreno, tendo a grama como telhado, confrontando-a com o mundo subterrâneo de Mordor, poluído, enfumaçado, opressivo (imagem da Birmigham fabril, da qual ele foi vizinho quando adolescente). Há no The Lord of the Rings, (O Senhor dos Anéis), publicado com grande êxito, entre 1954-5 (*), inúmeras referências à lenda renana do Anel dos Nibelungos, na qual Alberich, um anãozinho, roubara e guardara um anel mágico que permitia a invisibilidade e a possibilidade maligna de quem o tivesse a vir poder dominar o mundo.

(*) a trilogia se subdivide no: 1) The fellowship of the ring; 2) The Two Towers, e; 3) The return of the king

Na defesa da Montanha Branca

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O mago druida, o cavaleiro e a fada
A obra de Tolkien igualmente reflete as fobias e paranóias dos ingleses daquela época. Os dois maiores livros dele, The Hobbits e a trilogia The Lord of the Rings, mais de 2 mil páginas editadas entre 1937 e 1955, foram redigidos no momento histórico em que o império britânico (por ele chamado de Middle-earth) começou a fazer água, ameaçado por todos os lados (da insurgência irlandesa aos crescentes motins na África e na Índia). Por isso, Boromir, um dos cavaleiros que acompanha o hobbit Frodo na jornada, integrante da Sociedade do Anel, fez com que, no momento da sua agonia final, flechado por nativos a mando do mal, jurassem defender a Montanha Branca, ameaçada
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O mago Gandalf, objeto de culto entre os hippies
de desaparecer para sempre. Curiosamente esta narrativa tornou-se no final dos anos sessenta objeto de cult entre os americanos, entendida como um enfabulado manual de vida alternativa. A juventude hippie adorou aquela gente conduzida por uma mago de nome Gandalf que pitava ervas estranhas, falando esquisito e vivendo num mundo sem chaminés, nem prestação, em meio a paisagens inebriantes. Começaram a ler Tolkien para os seus filhos e agora o cinema mostra-o para o mundo. O império anglo-saxão tem assim, ainda que tardia e um tanto artificialmente, o seu épico literário.






 
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