George Steiner
O Leitor Apaixonado
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O filósofo lendo, Jean-Baptiste Chardin, 1734
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George Steiner, um dos mais sofisticados intelectuais do circuito universitário anglo-saxão do século XX, nascido em Paris, em 1929, mas educado nos Estados Unidos, é um humanista pessimista. Como apreciador e crítico da grande cultura clássica greco-romana, ele se interroga sobre o seu declínio e visivelmente sofre com a espantosa contradição entre a exuberância do pensamento ocidental e o morticínio, especialmente dos judeus, desencadeado neste século pelas forças totalitárias, geradas por essa mesma cultura. Uma das suas maiores inquietações é responder como alguém pode escutar Schubert à tarde e, em seguida, sair para tortura e esfolar alguém à noite? Entremente, Steiner revela-se um amante extremado dos livros e da leitura, um homem angustiado com a soberania da tecnologia e o descenso da humanística.
É possível ainda poder-se ler?
Num dos seus ensaios, sempre inquietantes, George Steiner (
O Leitor Incomum, 1978) fixa-se numa pintura de Jean-Baptiste Chardin, um artistas francês do século XVIII, para lançar-se na análise do cenário, quase litúrgico, sagrado, que envolvia a leitura no passado. A tela, intitulada o
Le Philosophe lisant, o filósofo lendo, aprontada em 1734, expõe a dedicação completa e a total absorção do leitor setecentista pelo livro. A busca do conhecimento e da sabedoria exigia um ritual próprio, uma entrega da mente e dos sentidos em função de poder entender as palavras e o seu significado. Este ato reverencial, solitário, quase talmúdico, de aproximação com o livro é algo que se perdeu, diz Steiner. O homem de hoje, assolado pelo tempo, transformado numa máquina em permanente agitação, não imagina mais desfrutar da calma e das amenidades que existiam outrora. O filósofo de Chardin, vestido para ocasião, parecendo-se como um sumo sacerdote do saber preparando-se para um cerimonial, nos faz recordar das palavras de Maquiavel quando, na sua carta ao amigo Soderini, dizia que depois de passar um bom tempo na taverna perto da sua propriedade, voltava para casa e, trajado com certa solenidade, dirigia-se para o seu escritório para "encontrar-se com os grandes". O silêncio, a quietude, o ar tranqüilo da época pré-industrial eram a tônica. A ausência de buzinas e do tilintar das campainhas, o rumor das conversas próximas, que nos entulham "de trivialidades estridentes", não existiam naqueles tempos. O declínio da importância da leitura, entretanto, não se deve somente a isso, a essas questões de se ter sossego ou não. O prestígio de ser-se um leitor qualificado igualmente eclipsou-se (pode-se até cogitar que com a democratização do ensino e a banalização da alfabetização entre as massas, a arte de ler perdeu sua aura aristocrática, exclusivista, apanágio de uma elite instruída e requintada).
Uma aristocracia pensante
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Baudelaire no solitário exercício da leitura
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Perpassa por todo o texto de Steiner uma ideologia nostálgica, lamentando o fim dos tempos em que haviam pessoas cultas, que cevavam-se no que tinha de melhor da literatura universal: de Homero a Shakespeare, cujo desaparecimento ele situa ter-se dado no final do século XIX.. Apesar de passar uma parte considerável da sua vida nos Estados Unidos - país em que segundo ele nada mais é do que um imenso arquivo da cultura ocidental, sem porém conseguir produzir nada de original e significativo -, ele manteve-se fiel às suas origens eurocêntricas (seus pais eram judeus cultos da Mitteleuropa). De certo modo, ele junta-se a Harold Bloom, o crítico norte-americano, que também exasperou-se com o descaso para com os clássicos, fenômeno típico da formação educacional dos dias de hoje.
Ele e Bloom pertencem a um grupo minúsculo de intelectuais poliglotas, sofisticados, uma minicorporação de cultura universal, que, cada vez mais reduzida, sente-se abandonada num mundo dominado pela vulgaridade crescente e pela plebeização avassaladora dos modernos meios de comunicação. Se o próprio universo acadêmico, última reserva da inteligência ocidental e derradeiro fortim do culto ao clássico, sucumbe ao ordinário, o que resta para a aristocracia pensante senão adotar um discurso saudosista?
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