A riqueza temática
Em suas peças encontra-se de tudo. Não só uma imensa diversidade de tipos humanos, (reis, rainhas, príncipes, cortesãos, ministros, bufões, soldados, estalajadeiros, mulheres do povo, mercenários, comerciantes, atores, padres, escroques, mágicos, ...), como a mais variadas situações existenciais e as mais diferentes classes sociais. Como homem do Renascimento, Shakespeare desprezou as fronteiras nacionais. Os seus dramas ocorrem na Dinamarca, nas cidades italianas, na Grécia e na Roma antigas, e até numa ilha do Novo Mundo. Pode-se compará-lo, de certo modo, a Giordano Bruno ou Galileu, descobridores de uma nova maneira de ver o cosmo. Só que o cosmo de Shakespeare foi criado com as letras, com as palavras, um cosmo inteiramente humano.
Do Avon ao Tâmisa
Deixando a mulher e os filhos em Stratford-on-Avon, Shakespeare chegou a Londres provavelmente em 1584-5, com mais ou menos 20 anos, tudo indicando que logo seguiu carreira artística. Supõe-se que tenha se introduzido no teatro como ator e ao mesmo tempo como adaptador de peças, em geral de autores bem mais antigos. Estima-se que foi assim que ele dominou a literatura clássica e as técnicas da encenação. A primeira peça que escreveu foi aos 26 anos de idade, sendo que a sua primeira obra-prima (
Romeu e Julieta) só surgiu quando ele atingiu os 32 anos de idade. Em 1599, Shakespeare participou da inauguração do teatro popular
The Globe e, em 1608, de um outro, mais reservado, chamado Blackfriars Theatre.
 O palco do Globe |
De resto levou uma vida de homem de teatro, alternando as apresentações com a freqüência às tabernas, percorrendo as ruas e logradouros de Londres atrás de escritos ou de conversas que lhe servissem de inspiração. Eventualmente acompanhava o seu grupo em excursões pelo interior ou em apresentações perante uma ou outra platéia de nobres rurais, levando esse tipo de vida por uns trinta anos até que, razoavelmente abonado, retirou-se para uma honrosa aposentadoria.
A publicação da obra
Infelizmente, no tempo em que viveu, ser um autor teatral não era considerada uma profissão ilustre. Apesar de Shakespeare ter-se tornado um bem-sucedido homem de negócios e um excelente empreendedor, tudo indica que ele não se importava muito com o que escrevia. Ou pelo menos não tinha consciência do seu valor. Tanto é assim que quando morreu no seu lugarejo de nascença, em 1616 (dizem que depois de uma bebedeira na companhia de Ben Johnson, que o visitava), não havia se dado ao trabalho de juntar seus escritos numa obra só. Deixou-os dispersos. Dois de seus amigos, os atores John Hemige e Henry Condell, felizmente recolheram quase tudo que estava espalhado e publicaram o primeiro in-fólio, em 1623. A interrogação que resta a fazer sobre a atitude de Shakespeare a respeito da sua obra é se ele minimizou a importância dos seus escritos a ponto de desconsiderá-los ou se realmente jamais teve um lampejo sequer sobre a importância extraordinária que ela iria ter no futuro.
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