A abdicação de Ricardo II:
o rei das dores
Após liderar um bem-sucedido levante contra o rei Ricardo II, seu primo Bolingbroke recebe a coroa real, depois da abdicação pública do rei deposto. Entra o rei caído com um grupo de oficiais levando a coroa.
Rei Ricardo: Ai! Por que me vejo obrigado a comparecer ante um rei antes de haver sacudidos os pensamentos reais pelos quais eu reinava? Apenas aprendi a insinuar-me, adular, inclinar-me e dobrar os membros. Daí tempo para o meu pesar, para eu instruir-me nesta submissão. Não obstante recordo perfeitamente os traços destes homens. Não me pertenciam? Não me saudavam gritando: "Salve?" Assim fazia Judas com Cristo. Mas ele entre doze homens não encontrou mais do que só falso; eu, entre doze mil, não acho um só fiel. Deus salve o rei! Ninguém contestará: Amém? Devo ser ao mesmo tempo sacerdote e acólito? Pois bem: amém. Deus salve o rei, ainda que já não seja!
York: Para cumprir de bom grado o que a fadigas da majestade te fizeram oferecer: a resignação do teu poder e da tua coroa a favor de Henrique Bolingbroke.
Rei Ricardo: Dai-me a coroa. Tomai-la aqui, primo, deste lado minha mão, do outra a vossa. Esta coroa de ouro assemelha-se agora a um poço profundo, no qual se encontram alternativamente dois recipientes: no alto como que sempre bailando no ar, o que está vazio; o outro, abaixo, invisível e enchido de água; sou eu o recipiente que se encontra embaixo, transbordando em lágrimas; bebo minhas dores enquanto vós ascendeis ao alto.
Bolingbroke: Acreditas que renuncias voluntariamente à coroa?
Rei Ricardo: A minha coroa sim, mas minhas dores serão sempre minhas. Podeis despojar-me do meu poder e das minhas dignidades, mas não das minhas dores: delas sempre serei rei.
(o rei Ricardo II, Ato IV, cena única)
A conspiração da pólvora
Outra tentativa mal-sucedida de derrubar o regime naquela época foi a chamada Conspiração da Pólvora (
Gunpowder plot), quando, liderados por Robert Catesby, um grupo de militantes católicos, entre os quais se encontrava o pouco conhecido Guy Fawkes, tentou explodir o Parlamento. O seu plano era colocar 32 barris de pólvora no porão do grande prédio para detoná-los no dia em que o rei Jaime I e sua corte estivessem presentes. Os conspiradores foram detidos no dia cinco de novembro de 1605, bem antes de consumarem o seu infeliz intento. Tão impopular foi tal tentativa que até hoje a data da captura de Fawkes é feriado na Inglaterra, celebrando-se a sacralidade e a intocabilidade do Parlamento como representante máximo da vontade do povo.
A situação material da Inglaterra isabelina
 Torre de Londres, prisão do Estado |
A Inglaterra do século XVI era um país pobre. Boa parte da aristocracia feudal havia sido dizimada na Guerra das Duas Rosas, entre as famílias Lancaster e York, que se estendeu de 1455 a 1 485, quando Henrique VII, Tudor, ascendeu ao trono, pondo fim à guerra civil. O outro acontecimento espetacular deu-se com a ruptura da monarquia inglesa com a Igreja Católica, quando o rei Henrique VIII, invocando razões de Estado, quis divorciar-se da rainha Catarina de Aragão. Como o papa não deu seu consentimento, o rei proclamou-se - por meio da Ata da Supremacia , em 1534 - soberano também sobre a religião, lançando as bases do anglicanismo. Nos anos seguintes, todos os mosteiros são suprimidos e suas propriedades vendidas à nobreza e à burguesia.
O fechamento das terras
Havia muita miséria pelos campos e pelas cidades inglesas. Uma das razões disso era a espoliativa política das enclousures, o cercamento das terras coletiva e sua apropriação por criadores de ovelhas (o próprio Shakespeare envolveu-se num problema dessa ordem quando retornou para Stratford-on-Avon), situação socialmente dolorosa, já denunciada por Thomas Morus na sua obra Utopia, de 1516. Conforme a indústria lanífera crescia nos Países Baixos, os campos ingleses passaram a dar mais espaço para ampliar as pastagens a fim de facilitar a criação de carneiros para exportar a lã.
 A dura lei da época (enforcamento coletivo) |
Nobres poderosos e a
gentry rural agiram brutalmente para expulsar os camponeses e aldeões das terras comuns, fazendo com que um verdadeiro mar de mendigos viesse dar com seus pobres costados nas cidades, especialmente Londres, que chegou a ter 150 mil habitantes na época de Shakespeare, fazendo com que se tornasse uma das maiores conglomerados humanos daqueles tempos. O fenômeno da crescente miserabilidade teve seus efeitos no endurecimento das leis penais, intolerantes e marcadamente punitivas que começaram a ser adotadas nos tempos de Henrique VIII, o pai de Isabel, merecendo elas, muitos anos depois, da parte de Karl Marx, um dos mais pungentes capítulos de
O Capital(vol. I, cap. XXIV, 3).
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