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O clamor patriótico
O clima extremamente tenso, dramático, apaixonado, resultante daquilo tudo acirrou o patriotismo de todos, inclusive o do maior dramaturgo da época. Shakespeare, tomado pelo clima emocional que envolveu os ingleses naqueles momentos, dedicou-se a compor uma série de grandes peças históricas celebrando o passado belicoso dos reis britânicos, conclamando os ingleses a manterem a unidade em torno da monarquia. Atingiu ele sua expressão maior com Henrique V, a narrativa da grande aventura do jovem rei inglês que, num dos episódio da Guerra dos Cem Anos, travada contra a França, na celebrada batalha de Azincourt em 1415, destruiu toda a cavalaria inimiga, muito mais numerosa, com um punhado de valentes arqueiros e de bravos cavaleiros ingleses.

O discurso do dia de São Crispim

A cena ocorre no acampamento inglês no dia da batalha de Azincourt (25 de outubro de 1415). O rei Henrique V faz a revista em suas tropas. Os ingleses tem dez mil soldados para opor-se aos 60 mil franceses que os aguardam nas planícies de Azincourt quando é abordado pelo conde de Westmoreland (*).

O conde de Westmoreland, primo do rei, lamenta a falta de mais homens para pelo menos tentar equilibrar um pouco a enorme diferença dos efetivos de combatentes. O rei toma a palavra então:

Quem expressa esse desejo? Meu primo Westmoreland? Não, meu simpático primo; se estamos destinados a morrer, nosso país não tem necessidade de perder mais homens do que nós temos aqui; e , se devemos viver, quanto menor é o nosso número, maior será para cada um de nós a parte da honra. Pela vontade de Deus! Não desejes nenhum um homem a mais, te rogo! Por Júpiter! Não sou avaro de ouro, e pouco me importo se vivem às minhas expensas: sinto pouco que outros usem minhas roupas: essa coisas externas não encontram abrigo entre as minhas preocupações; mas se ambicionar a honra é pecado, sou a alma mais pecadora que existe.

Não, por fé, não desejeis nenhum homem mais da Inglaterra. Paz de Deus! Não quereria, pela melhor das esperanças, expor-me a perder uma honra tão grande, que um homem a mais poderia quiçá compartir comigo. Oh! Não ansieis por nenhum homem a mais! Proclama antes, através do meu exército, Westmoreland, que aquele que não for com coração à luta poderá se retirar: lhe daremos um passaporte e poremos na sua mochila uns escudos para a viagem; não queremos morrer na companhia de um homem que teme morrer como companheiro nosso.

O dia de São Crispim: este dia é o da festa de São Crispim; aquele que sobreviver esse dia voltará são e salvo ao seu lar e se colocará na ponta dos pés quando se mencionará esta data, ele crescerá sobre si mesmo ante o nome de São Crispim. Aquele que sobrevier esse dia e chegar a velhice, a cada ano, na véspera desta festa, convidará os amigos e lhes dirá: "Amanhã é São Crispim". E então, arregaçando as mangas, ao mostrar-lhes as cicatrizes, dirá: "Recebi estas feridas no dia de São Crispim."

Os velhos esquecerão; mas, aqueles que não esquecem de tudo, se lembrarão todavia com satisfação das proezas que levaram a cabo naquele dia. E então nossos nomes serão tão familiares nas suas bocas com os nomes dos seus parentes: o rei Harry, Bedford, Exeter, Warwick e Talbot, Salisbury e Gloucester serão ressuscitados pela recordação viva e saudados com o estalar dos copos.

O bom homem ensinará esta história ao seu filho, e desde este dia até o fim do mundo a festa de São Crispim e Crispiano nunca chegará sem que venha associada a nossa recordação, à lembrança do nosso pequeno exército, do nosso bando de irmãos; porque aquele que verter hoje seu sangue comigo, por muito vil que seja, será meu irmão, esta jornada enobrecerá sua condição e os cavaleiros que permanecem agora no leito da Inglaterra irão se considerar como malditos por não estarem aqui, e sentirão sua nobreza diminuída quando escutarem falar daqueles que combateram conosco no dia de São Crispim.

(A vida do rei Henrique V, ato IV, cena III)

(*) No combate, os franceses, comandados pelo condestável Charles I d'Albret, foram totalmente batidos pelos arqueiros ingleses num dos maiores desastres militares da história da França, que perdeu, além do condestável, 12 outros membros da alta nobreza, 1.500 cavaleiros e mais 4.500 soldados.

Envolvido num golpe

Shakespeare e seu grupo de teatro - a Companhia do Camerlengo - ainda viu-se arrastado sem o desejar num inusitado complô, raro de ocorrer na História. Em 1601, os seguidores do conde de Essex, pretendendo derrubar o governo da rainha Isabel, imaginaram um coup-d'état em que o ponto de partida do golpe a ser dado seria a apresentação da peça de Shakespeare Ricardo II, que justamente tratava da deposição de um rei.

Os partidários do conde insurgente convenceram os atores a ensaiarem o drama como uma espécie de preparação para o que iria ocorrer no dia oito de fevereiro, a data marcada para a sublevação. O intento malogrou miseravelmente e Essex foi executado uns dias depois, em 26 de fevereiro de 1601. Esse episódio chocante fez com que Shakespeare, ainda perturbado por episódios particulares, mergulhasse numa série de obras sombrias, quase sempre transcorridas em tétricos cenários góticos, e que ficarão entre suas melhores composições: Otelo, Rei Lear e Macbeth.

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