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Quem é o Sol do sistema
É problemático encontrar-se o seu centro. Quem é o Sol do sistema shakespeariano? Não se trataram suas encenações de autos religiosos, onde Deus, Cristo ou a Igreja, ainda que fisicamente ausentes, nem figurados ou representados, assumem o centro oculto de tudo, o poder sobrenatural onipotente, ainda que encoberto. Muito menos pode-se dizer que ele é ocupado por uma potência terrena como uma monarquia por exemplo. Muitas das suas peças não se passam na corte, nem os soberanos são seus personagens obrigatórios ou mesmo dignificantes (o que dizer da vilania de um Ricardo III, da ingenuidade do Rei Lear, ou da traição de um Macbeth?). Seria o público o centro de tudo? Seria uma abstração do Homem, um antropocentrismo? Seria ousado demais dizer-se que ele prenuncia um relativismo de Einstein, para quem o centro inexiste? Poderia dizer-se que ele, tal como Giordano Bruno, acreditava em muitos outros mundos, uma infinidade deles, fazendo com que cada uma das suas peças, como conseqüência, fosse dotada de um Sol próprio, diferente das outras?

Influência universal de Shakespeare
A maior parte das peças mais conhecidas de Shakespeare foram traduzidas e representadas na maioria dos idiomas ocidentais, inclusive no Japão. Outras tantas foram filmadas (seguramente Hamlet foi a mais aproveitada, com mais de 50 versões feitas pelos mais diversos diretores, inclusive a Ingmar Bergman, em 1986), tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos, Alemanha, França, Rússia e Japão (Akira Kurosawa foi seu grande admirador, levando o King Lear às telas). Naturalmente que é difícil precisar o alcance literário dele, visto que grande parte dos escritores modernos leram-no ou nele se inspiraram.

Goethe, divulgador de Shakespeare
Goethe, que foi o seu grande divulgador na Alemanha do século 18, viu-o como uma força da natureza que, quase que premonitoriamente teria antecipado o movimento Sturm und Drang. Utilizou-o então como um aríete na luta anticlassicista e anticanônica que se
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A noite das feiticeiras ( Walpurgisnacht de Dürer)
travava nos cenáculos intelectuais da Alemanha. Shakespeare teria sido o primeiro dos românticos, precursor deles todos. Não apenas isso, o ambiente que cerca o seu Fausto, e em vários dos seus momentos, pode ser considerado uma recriação alemã dos cenários de Shakespeare (a presença da caveiras e dos espíritos, o contraste entre as aforas alegres do campo e o ambiente estranho, soturno, do quarto gótico do doutor Fausto que tanto nos lembra o laboratório de Próspero; o episódio da Noite das Walpurgis que assemelha-se ao encontro de Macbeth com as bruxas numa charneca, etc.).

Shakespeare e a música
A ascendência de Shakespeare não limitou-se às letras e à dramaturgia ou ao cinema. Beethoven, que foi seu leitor confesso, aspirando nas suas peças o temperamento inesperado e tonitruante, inspirou-se nele para a abertura do seu Coriolano (1807), como também tirou da última cena de Romeu e Julieta o motivo para o Opus 18, nº 1 , enquanto que a leitura do The Tempest fez com ele idealizasse a sonata em Dó menor, Opus 31, n.º 2. A própria explosão sinfônica de Beethoven, equivalente musical da de Shakespeare, pode ser considerada como um radical rompimento com os cânones anteriores, os do neoclassicismo seguidos por Haydn e Mozart.

Machado de Assis e Shakespeare
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Otelo, vítima e algoz do ciúme
No Brasil, Machado de Assis talvez tenha sido, entre os nossos principais homens de letras, o mais assumido dos shakesperianos, fazendo com que Bentinho, o Dom Casmurro, possa ser lido como uma versão tropical de Otelo. Na qual a Capitú, ao invés de ter tido o destino horrível da bela Desdêmona estrangulada, foi somente banida, dando um toque mais suave, não sangrento, bem brasileiro, num caso de ciúme doentio. A própria revolta dos canjicas , um episódio menor do "O Alienista", possivelmente lhe foi sugerida pela leitura da fracassada revolta de Jack Cage, relatada por Shakespeare no Henrique IV , e é bem explicita esta influência no intróito ao conto "A cartomante", bem como são inúmeras as passagens na obra dele em mostram sua reverência pelo grande bardo.

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Especial Shakespeare

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