A visão anárquica
Esforçou-se sim em retratar a vida em si, anárquica, imprevista, emocional, sem ser dotada de uma lógica qualquer identificável, exercendo com isso um enorme efeito sobre a sensibilidade das platéias e de todos os que o lêem. A liberdade temática de Shakespeare de certa forma explica a sua versatilidade, se bem que muito condizente com a época, em não se prender a um gênero só. Transitou ele com enorme desenvoltura e desembaraço pela tragédia, pelo drama e pela comédia, por sobre suas constelações, como se fosse uma espécie de Mercúrio, um deus sideral, saltando duma para outra. Essa foi a razão dele ter sido "descoberto" pelos românticos europeus que viram-no, em sua desordem e explosões emocionais, um precursor da batalha ideológica que travavam contra o neoclassicismo que imperava, absoluto, na estética do século 18.
Personagens imortais
Virtude outra do universalismo de Shakespeare foi a capacidade dele individualizar os personagens ao ponto de torná-los facilmente identificados, como os planetas o são no firmamento. Quem, dotado de razoável cultura, desconhece um Romeu ou sua apaixonada Julieta? Quem não sabe quem foi Otelo? Ao esculpir e polir suas imortais personalidades no palco, assinalou uma ruptura total com a Idade Média que não concebia a individualidade com um perfil definido, como uma singularidade irreproduzível e inédita feita pelo Criador ou pela Natureza. Nos tempos medievais existiam homens, não indivíduos! Os personagens de Shakespeare são apresentados com perspectiva e multidimensão. Trabalhou o claro-escuro, como depois dele o fez nas telas o mestre barroco Caravaggio, tendo porém a pena como pincel. Não só usou os recursos fortemente contrastantes dentro da mesma peça, alternando, de um ato para outro, momentos de escuridão com outros de luz, como também nos gêneros, saltando da tragédia para uma hilariante comédia.
O mundo sombrio e por vezes terrífico em que situou suas histórias (Macbeth, Hamlet, Ricardo III) facilmente contrapõe-se aos das suas criações ligeiras e divertidas (Megera domada, As alegres comadres de Windsor, Sonhos de uma noite de Verão, etc.). A superior versatilidade e o imenso talento dele fez com que captasse as várias e diversificadas nuanças da vida simultaneamente (a dor e o riso, alegria e a tristeza, o humor e a fúria), bem como os mais variados desencontros que ela provoca.
 As fantasias de "Sonhos de uma noite de verão" |
Um cosmo pré-newtoniano
O cosmo shakespeariano é, porém, pré-newtoniano, inclusive pré-copernicano. Os planetas ali, seus personagens, não circulam dentro de uma ordem preestabelecida, inteligível ou perceptível pela lógica astronômica, capaz inclusive de prever o destino imediato da sua rotação e translação. Ao contrário, são corpos erráticos, mais próximos às estrelas cadentes e aos elipses dos cometas, que lembram muito as astrologias pagãs, celta ou bretã, que prendem-se a uma lei de gravitação muito própria. Essa é formada por um sentimento forte, fortíssimo. Cada um dos seus dramas ou das suas tragédias é a tragédia de alguma coisa:
Hamlet é a da Vingança;
Rei Lear é a da Ingratidão;
Otelo é a do Ciúme;
Ricardo III é a da Vilania;
Romeu e Julieta é a do Amor, e assim por diante. Afinal não podia ser de outra forma. O renascimento mostrou o íntimo convívio da nascente paixão pela ciência (Copérnico, Kepler , Galileu) com o fascínio pela magia negra, pela alquimia, pelo ocultismo e pela astrologia (
Giordano Bruno, o próprio Kepler, Nostradamus, Paracelsus, etc.), aliás pode-se ver que Próspero, a figura central de a
The Tempest, é o retrato acabado do homem de gênio do renascimento, em sua ambigüidade de ter um pé nas artes mágicas e outro na ciência, com parte da cabeça voltada para o tubo de ensaio e outra perscrutando as mensagens das estrelas, uma prática próxima ao charlatanismo e outra da seriedade. Como Fausto!
Os seus personagens são hierarquizados, uns são principais, outros absolutamente secundários, mas eles não têm compromissos com uma certa ordenação geométrica ou com a insinuação disciplinada de uma lei física. É cosmo no sentido dele ter concebido um mundo todo, vasto, com infinitas possibilidades de realização. Ninguém sabe previamente, bem ao contrário da previsibilidade da tragédia clássica, o que acontecerá ao longo da encenação com os personagens que se apresentam. O cosmo dele assemelha-se, contraditoriamente, a um caos!
Entende-se como sendo a melhor expressão do seu pensamento, em parte um reflexo da perplexidade niilista do grande poeta com o mundo em que coube viver, a conhecida recitação constante no Macbeth, quando o rei assassino, atormentado, diz;
"A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre cômico que se empavona e agita por uma hora no placo, sem que seja, após, ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muita barulheira, que nada significa."
(Macbeth, Ato V, cena V)
Passagem que evidentemente vai servir de fonte inspiradora e base metafísica para toda a especulação a ser feita, três séculos depois, pelo filósofo Arthur Schopenhauer no seu Die Welt als Wille und Vorstellung, O Mundo como Vontade e Representação, de 1819.
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