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As constelações de Shakespeare

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W.Shakespeare
(1564-1616)
A obra de Shakespeare, concluída com sua morte em 1616, dada a sua vastidão e profundidade, pode ser considerada como uma grande construção astronômica, como um cosmo, escrito e erguido por um só grande homem de gênio, um dos mais impressionantes painéis jamais concebidos pela mente humana.

Estudando Shakespeare
É de Northrop Frye a observação de que se estudamos Shakespeare apenas em seus ângulos históricos, como um produto da época elizabetana, resultado das tensões de um reino em constante ameaça e de um império que recém começava a engatinhar, nós esvaziamos a importância dele para o nosso tempo. Uma abordagem desse tipo nos conduz à visita de um museu literário, uma espécie de Mme. Tussauds das letras. Por outro lado, ver seu texto, extrair dele somente aquilo que poderá de alguma forma atrair a nossa atenção, como homens e mulheres contemporâneos, nos impede de investigar o passado, a intrincada rede social e histórica onde o texto shakespeariano surgiu para afirmar-se como um valor universal. Que resta senão repetir a retórica declaração de intenções na qual o estudioso, o crítico, o historiador da cultura, sempre se propõe manter um intenso e produtivo diálogo com o passado? Todo o grande autor é um homem da sua época, mas sua sobrevivência através dos tempos, a explicação disso, é
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Lady Macbeth, enlouquecida pela culpa
ainda um desafio intelectual a ser convenientemente elucidado. Trata-se de um repto a que se encontre o sinuoso, e por que não dizer o mágico fio que liga um autor que viveu há séculos atrás, que habitou e educou-se num país específico, que escreveu na sua própria língua, mas que inquestionavelmente consagrou-se como um nome internacional, universal. Qual o mistério que faz com que suas obras consigam emocionar homens e mulheres de todas as latitudes, imperturbável pelos séculos que passaram e, seguramente, por todos aqueles que ainda estão por vir?

O grande geômetra
Tomando-se Shakespeare como se fora um grande geômetra da época do Renascimento, preocupado porém não com os corpos celestes, mas com os terrestres (ele nunca teve preocupações transcendentais), armado somente com pena e tinta, e não com a luneta, pode-se tomar a liberdade de classificar sua obra em três grandes tipos de constelações ou sistemas planetários: o das comédias (A Tempestade, Os fidalgos de Verona, As alegres comadres de Windsor, Mercador de Veneza, A megera domada, etc...); o das histórias (A vida e a morte do rei João, Ricardo II, e III , Henrique IV , V , VI e VIII); e o das tragédias (Coriolano, Romeu e Julieta, Júlio César, Macbeth, Hamlet, Rei Lear, Otelo, Antônio e Cleópatra e Cimbelino). Em cada uma delas há uma espécie de personagem solar, ao redor da qual giram corpos de variada dimensão, formando um complexo sistema com suas próprias leis de gravitação.

Ausência do cânone
Apesar de manter os cinco atos dos princípios clássicos, as peças de Shakespeare não obedeciam a nenhum cânone, não se prendiam a nenhuma concepção ou arquétipo, nem mesmo a uma regulamentação prévia. Conduziam-se, por assim dizer, ao sabor dos acontecimentos. O rigorismo formal na apresentação e no seguimento do enredo dramático que tanto agradava os trágicos franceses como Corneille e Racine, e aos demais puristas do teatro, ele simplesmente desconsiderava. (Voltaire, apesar de reconhecer-lhe o gênio, abominava o desrespeito de Shakespeare às regras exatamente por isso, pelas peças dele primarem pela ausência da liturgia trágica). Pode-se arriscar dizer que ele, talvez seguindo Sêneca, seu mentor romano, retirou da encenação teatral do universo sagrado que a envolvia desde os tempos da tragédia ática. Shakespeare, dessa maneira, humanizou e secularizou o que antes era visto como sacrossanto. Tornou-a um tema profano.

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