O erro de Sartre
Chamado de "a consciência universal" do século XX, o filósofo Jean-Paul Sartre preocupou-se, entre tantas outras coisas, em redefinir o papel dos intelectuais na moderna sociedade de massas. Reservou a eles uma posição relevante na condução dos destinos futuros, desde que se despissem dos formalismo de classe e se engajassem na luta pela emancipação dos oprimidos. O que ele jamais poderia acreditar, e a morte, ocorrida em 1980, o poupou disso, é que o regime que se dizia representar os anseios mais calorosos de igualdade e fraternidade - o regime socialista vigente no leste europeu -, iria ser desmontado exatamente por aqueles a quem dizia atender.
O filósofo do engajamento
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Paris, o motim estudantil de 1968
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O universo político que cercou a vida de Jean-Paul Sartre, explica Sartre. É impressionante como ele, de um modo muito próprio, mais do que qualquer outro pensador do século XX, concentrou em si e na sua filosofia, ao longo dos 50 anos da sua atividade literária, as paixões e as perplexidades existenciais e ideológicas da sua época. Enquanto outros filósofos, ditos "clássicos", como Husserl ou Wittgenstein mantinham-se protegidos nos mosteiros acadêmicos, presos a uma linguagem esotérica, Sartre foi à luta. Testemunhou e por vezes membro ativo dos grandes enfrentamentos do século: comunistas contra nazi-fascistas, a luta anticolonialista (da Argélia ao Vietnã), o conflito americano-soviético que transcorreu no auge da Guerra Fria, e, no que tange ao socialismo, a dicotomia entre a reforma ou a revolução? Sobre tudo isso e muito mais ele escreveu e opinou. O redemoinho das paixões que o circundaram, desde 1930 até 1980, fizeram com que ele não conseguisse manter o pescoço fora daquele emaranhado. De certa forma isso foi sua grandeza mas também determinou seu fim, limitado que ficou como filósofo da conjuntura.
Teóricos do saber prático
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Regis Debray, exemplo do intelectual engajado
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Para Sartre, a era dos intelectuais ditos "clássicos" já havia passado. O tempo em que alguns talentos dedicavam-se ao saber desinteressado, a pesquisa pela pesquisa por assim dizer, já não fazia parte do mundo contemporâneo. Agora, na sociedade burguesa, tudo tem um sentido de utilidade. Qualquer coisa que se faça visa um aproveitamento, portanto os intelectuais de hoje são "teóricos do saber prático".
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T. Parsons um teórico do saber prático anti-sartreano
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Mas ao aceitarem essa função, segundo Sartre, eles já não podem ser classificados de intelectuais pois carecem dos atributos que caraterizam o métier do intelectual - o espírito crítico e uma vocação para o enfrentamento. Esses teóricos do saber prático, como os sociólogos americanos, por exemplo, querem é conformar e harmonizar o trabalho com o capital e não atritá-los, levá-los ao choque e à superação. Para ele a palavra "intelectual" adquiriu uma conotação quase mítica, o portador desassombrado do destino futuro, produto último da transformação do teórico do saber prático. Nada mais distante dele, portanto, do que aquele que olha para a sociedade como um objeto distante, frio, petrificado, do qual se procura extrair leis de funcionalidade, tipo o sociólogo Talcott Parsons.
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