BUSCA + enter






A rebelião do primo

O desespero dele vai crescendo quando, ao retornar de uma campanha militar na Irlanda, depara-se com um quadro de franca rebeldia. Chocou-se quando a realidade não correspondeu aos delírios de um poder divinizado. Seu primo Bolingbroke havia desembarcado numa praia inglesa e, com o apoio de inúmeros nobres, marchava contra ele.

Ricardo II, decepcionado, vai então, passo a passo, despindo-se do figurino divino que ele imaginava imantá-lo, convertendo-se num personagem humano, frágil e trágico. Percebe que se nele vive o sagrado, a majestade do cargo coabita com um corpo perecível, sujeito ao comezinho, ao mortal, envolvido por vileza, traição e covardia.

A coroa é um poço

reprodução
A coroação de Eduardo II, o avô de Ricardo II
Sitiado de todos os lados, abandonado como Cristo no credo, só lhe resta transmitir a coroa ao vitorioso. É um dos momentos altos da peça quando Ricardo II despe-se dos seus aparamentos, retira o seu manto e estende a coroa ao primo vitorioso. Compara-a, a coroa, a um profundo poço. Lá em cima está um recipiente pronto a aureolar o novo rei, lá embaixo um outro, afundado nas lágrimas do infortúnio da deposição. Levado preso para o castelo de Pontefract, no interior da Inglaterra, termina morrendo por maus tratos ou assassinado por um favorito do novo rei. Esse acontecimento histórico por sua vez, ocorrido em 1399, iria desencadear a Guerra dos Trinta Anos entre as duas famílias reais, a os Lancaster e a dos York, também conhecida como a Guerra das Duas Rosas, a rosa vermelha de Lancaster contra a rosa branca dos York.

Essa peça que estreou em 1595 e continua até hoje como a melhor exposição das idéias de Shakespeare e do seu tempo sobre a monarquia. A concepção dos "dois corpos do rei" - o divino e o profano - que ele exaustivamente expõe ao longo da sucessão dos atos, fez sucesso entre os estudiosos da ciência política e inspirou a obra de Ernst H. Kantorowitz no seu formidável estudo sobre as relações da teologia com o poder na Idade Média. The King's Two Bodies - A Study in Medieval Political Theology, (Os dois corpos do rei - um estudo na teologia política medieval, 1957).

A peça e o golpe de Essex

reprodução
O Duque de Aumerle, primo do rei deposto
O mais interessante na história dessa montagem é que ela quase se tornou realidade, pois inspirou um golpe palaciano contra a rainha Isabel I. O Conde de Essex, um aventureiro que fora um dos seus favoritos, e que depois de desprezado pensava em destroná-la, planejou uma rebelião em Londres contra a soberana. Para tanto, para se inspirarem e tomarem coragem para o gesto ousado e temerário, os conspiradores teriam arranjado uma apresentação especial no teatro Globe do Ricardo II de Shakespeare. Dali, depois da encenação, estimulados, esperavam tomar de assalto o poder. Essex já se imaginava no papel do vitorioso Bolingbroke, e à Isabel I caberia, é claro, o papel do timorato Ricardo II, o rei perdido.

A conspiração de 1601 fracassou miseravelmente e quem foi parar no cepo foi o pescoço de Essex. Isabel I, tal como seu pai Henrique VIII, não economizava sangue alheio para defender o trono.

No caudaloso processo que se seguiu, os artistas foram citados como cúmplices do lorde sedicioso mas conseguiram provar que interpretaram coagidos pela gente de Essex. Foi uma das raras vezes na História, pelo menos que se saiba, em que se pensou usar uma peça de teatro como aríete para um golpe de Estado.

  Leia mais:
Especial Shakespeare

|



 ÍNDICE DE CULTURA E PENSAMENTO





 
 » Conheça o Terra em outros países Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2002,Terra Networks, S.A Proibida sua reprodução total ou parcial
  Anuncie  | Assine | Central de Assinante | Clube Terra | Fale com o Terra | Aviso Legal | Política de Privacidade