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Shakespeare e o rei deposto

reprodução (gravura de Menzel)
William Shakespeare
A peça Ricardo II é a única obra dramática de Shakespeare a retratar a deposição de um rei, como também, ao que se sabe, foi a única que foi certa vez encenada, supõe-se que pelo próprio Shakespeare - ainda que sem sua ciência, para estimular um golpe de Estado.

"Vivo de pão, como vós; como vós sinto necessidades, saboreio a dor, necessito de amigos. Sendo pois escravo disso tudo dizei-me que sou rei?"
Shakespeare, Ricardo II (ato III, cena II)

A fortaleza de um rei

reprodução
Ricardo II (1367-1400)
Ouvindo um comentário fortuito, feito ao acaso pelo jardineiro do castelo, é que a rainha soube que seu marido, o rei Ricardo II da Inglaterra, até então em campanha para sufocar a rebelião do seu primo Bolingbroke, lutava numa causa perdida. Dizia o homem ao seu auxiliar que o rei pecara por um lado em não ter podado a tempo os brotos atrevidos que, aqui e ali, afloravam no reino, e que por outro lado não amparara os seus mais fiéis seguidores.

Foi a esse estratagema cênico, recorrendo à metáforas herbáceas, que Shakespeare comunicava ao público do teatro Globe, de Londres, que um rei estava em vésperas de ser deposto. Simultaneamente enriquecia com sua poderosa imaginação a teoria política, associando, em várias passagens e belos exemplos, o poder do rei ao poder virilizador da natureza. Da mesma forma que um carvalho dava imponência à paisagem ao seu redor, um monarca fortalecido dava ânimo e segurança a toda a sociedade.

Nem caridoso nem generoso

Ricardo II, porém, fracassou não por não ter seguido o hipotético conselho do seu astuto jardineiro, mas por ter claramente infringido o que se considerava nos tempos medievais as bases de um bom governo: ser caridoso para com os pobres que estão abaixo dele e generoso para com os nobres que estão ao seu redor. Ricardo II não só permitiu que seus tutores acumulassem o povo de tributos, provocando assim indiretamente a revolta camponesa, liderada por Wat Tyler (pacificada em 1381), como expropriou os bens de um tio seu, o moribundo John de Gantes. Anteriormente banira-lhe o filho, o primo Bolingbroke, que além de exilado ficou sem fortuna.

Chamando a si mesmo de Sol do reino, Ricardo II embebera-se da idéia que fazia do soberano uma figura intocável que, em caso de perigo extremo, sempre teria a sua disposição tropas de anjos celestiais. Essa divinização do poder e sua associação com as forças sobrenaturais fizera com que ele enfatizasse que sua autoridade tinha aval divino e que "nem toda a água do mar irritada e rugidora" e nenhum humano poderia apagar o "óleo santo de um rei ungido".

reprodução
A revolta de Wat Tyler

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