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Ovídio e a Idade do Ferro


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Ovídio

A mudança radical vivida pelos homens entre a maravilhosa Idade do Ouro e a desgraçada Idade do Ferro abre o celebrado poema épico de Públio Ovídio Nasão que retrata a saga mitológica da criação do mundo, desde os tempos primeiros até a época de Júlio César. O autor, nascido em Sulmona, na Itália, no ano de 42 a.C., considerado um dos maiores poetas de todos os tempos, registrou em versos a estranha sensação que quase sempre acompanha a humanidade desde então: a eminência de vir a perder tudo, afogada num grande dilúvio.

O Poeta Exilado

Est tamen humani generis iactura dolori omnibus, et, quae sit terrae mortabilibus orbae forma futura, rogant, quis sit laturus in aras tura, ferisne paret populandas tradere terras. Talia quaerentes (sibi enim fore cetera curae) rex superum trepidadre uetat sobolemque priori dissimulem populo promittit origine mira.

(Da triste humanidade o fim lhes custa: perguntam qual será da terra, a face, qual forma a sua, dos mortais vazia? Quem irá às aras ministrar incenso? Será talvez o mundo entregue às feras? O que foi dos homens será entregue aos brutos?)

Ovídio - Metamorfose, verso 245-250


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Os amantes (mármore grego)

Ovídio, o grande vate romano, teve, até os cinqüenta anos de idade, tudo o que um poeta pode almejar: fama, fortuna e um grande sucesso entre as mulheres. Foi então que um raio imperial o alcançou. Um decreto com o lacre de Augusto jogou-o, desterrado, para bem longe de Roma. O imperador, sempre cioso em manter uma fachada de respeitabilidade, encontrou entre os pertences da sua ex-mulher, Júlia, vocacionada à libertinagem, a Ars amatoria (A arte de amar) de Ovídio. Tratava-se de um manual de intriga e sedução escrito em versos, provavelmente no princípios do ano I, a quem o novo César atribuiu os desatinos da ex-imperatriz. Além disso, a dissolução dos costumes era combatida oficialmente pelos censores e demais magistrados. Na tentativa de manter elevada a fidelidade

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Um fauno seduz uma dama romana

aos valores do Estado romano. Do dia para noite, a atrevida vida mundana de Ovídio, que trafegava nas serestas romanas como o desembaraço de um verdadeiro soberano da letras latinas (a maioria dos grande poetas, como Virgílio, Propércio e Horácio, havia morrido), fôra-se para sempre.

Confirma-se o desterro


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A arte da sedução

O poeta, já no caminho do exílio para Tomos, um distante lugarejo na costa do Mar Negro, onde ele veio a falecer nove anos depois, no ano 17, não poupou lágrimas e choramingas mil - registradas no seu Tristia, uma interminável lamuria - na tentativa de demover o senhor de Roma a rever a punição. Nem quando Augusto morreu, no ano 14 , ele pode manter as expectativas de um retorno. O sucessor dele, o sisudo Tibério, também casara com uma doidivanas, cultora de Vênus, a quem os intrigantes diziam ter também aspirado as estrofes envenenadas de erotismo do pobre exilado. Assim, o poder esqueceu-se de Ovídio. Mas, felizmente, não o mundo das letras.

A Idade do Ouro


(J.Bosch)

O paraíso, a idade de ouro cristã

Talvez fosse o surpreendente desabar do seu belo mundo, da doce vida que ele levava em Roma, que de alguma forma contribuiu para que, num instante de premonição poética, carregasse tanto na ruptura, descrita no seu grande poema Metamorfoses (*), provavelmente terminado no ano em que embarcou para o exílio, entre a Idade do Ouro e na sua oposta, a Idade do Ferro. Antes, tudo ia bem naquele mundo mítico do bem, conta Ovídio. Não havia lei nem propriedades. Logo, insistiu o poeta, ninguém saía a cata de riquezas, nem desconfiava do outro. Nem sequer muros as moradas tinham. A fé e a justiça abundavam e ninguém temia o castigo ou o medo, nem ouviam-se ameaças de alguém. A paz era permanente, não havendo precisão de armas ou de soldados. O clima, sempre o mesmo, permitia que a natureza fosse generosa com todos. Morangos, cerejas, amoras, tudo encontrava-se à vontade. Nos rios corria leite, nas árvores, pendurados, favos de mel, doce e pegajoso. E eis que, num nada, o clima inteiro muda. Então, na emergente Idade do Ferro "todo o horror, todo o mal rebentam nela".





 
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