O culto ao doente e ao fraco
Ele até aceitou que os doentes e os fracos exerçam uma espécie de fascínio sobre a maioria das pessoas, supondo-os, sob o ponto de vista "humanístico", serem mais interessantes do que os saudáveis. Lembra que nada atrai mais as pessoas do que a presença de um louco ou do que um santo, duas espécies curiosíssimas de homens que, para ele, estão um tanto aparentados com alguém de gênio. Neste verdadeiro culto ao bizarro, ao grotesco, nesta devoção ao torto, ao
gauche, marca da modernidade, soma-se o fato de que os grandes aventureiros e os criminosos, em certos momentos da existência deles, apresentarem-se como doentes. O mesmo aplicando-se às paixões humanas em geral: "os grande movimentos da alma, as paixões do poder, o amor, a vingança,...", pois tudo isso parece loucura, tudo merece
a simpatia. Este seu catálogo da decadência chama atenção igualmente para o fato de que o homem mesmo passa a maior parte da sua vida em decadência. A metade da nossa crônica biológica é marcada pelos sinais e sintomas da decomposição física e mental. Portanto, a decadência esta incorporada à existência. Os acessos de demência ocasional, e a inevitável sensação de decomposição biológica do homem, explicam o fenômeno da atração pelo maligno, pelo deficiente. Afinal trata-se de um olhar sobre si mesmo.
Humanidade e civilização
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O sombrio mundo das massas
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Além disso, pondera ele, deve-se considerar que, no mínimo, metade da humanidade é feita de gente fraca, tipicamente enferma, inconstante, sem esquecer-se das mulheres, bem mais frágeis do que os homens, que compõem parte substancial do contigente humano, senão o maior. É a debilidade que explica o sucesso da religião entre elas. Mas, pondera Nietzsche, o próprio crescimento da civilização igualmente promove um espantoso aumento dos elementos mórbidos, da psiconeurose e da criminalidade. Não explicitando se isso se dá pelo desalinhamento das amarras repressivas, que se afrouxam naturalmente num clima civilizado, ou pela simples difusão da tolerância. É neste meio que se forma o artista como uma espécie intermediária que "não está ainda bastante amadurecida para um manicômio, mas estende suas antenas psiconeuróticas para ambas as esferas" - a da demência e a do crime. Ao invés deles formarem uma vanguarda, como muitos deles se vangloriam, Nietzsche acredita que os artistas formam uma corrente descendente - o arauto da decadência "que arrebata a dianteira".
A ascensão das camadas inferiores
A coisa piora ainda mais, segundo ele, porque a mescla social, amplamente praticada na idade moderna, estimulada pela "superstição da igualdade entre os homens", promove a liberação dos instintos vis das camadas sociais inferiores. Contamina-se assim o ambiente com os vapores do ressentimento, do descontentamento, do impulso destruidor, anárquico e niilista. Forma-se então um tipo de "vontade geral" que, partindo das massas, se joga, se dirige contra a escolha, contra os direitos de qualquer casta, fazendo por submeter mesmo os privilegiados, envergonhando-os por deterem em outros tempos suas justificadas prerrogativas especiais. O homem especial, o excepcional, o fora de série, não só vê-se perseguido como também é forçado a introjetar algum tipo de culpa, condenando a si mesmo por não ser medíocre, por não ter uma alma de rebanho.
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Um mundo onde o talento e aprisionado
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