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"Aquele que um dia ensinar os homens a voar destruirá todas as barreiras: para eles as próprias barreiras voarão pelos ares; batizará novamente a terra chamando-lhe a leve."

Nietzsche - "Assim falou Zaratustra", 1883

Erguendo muros


Muro de Berlim, 1961-1989
Completados em outubro mais de dez anos do desaparecimento do Muro de Berlim, ocorrido em outubro de 1989, pergunta-se se a humanidade: no vindouro poderá abolir com as barreiras de todas ordem que ela ergueu contra si mesmo ao longo desses 2.500 anos de história que nos separam desde os tempos de Heródoto?

No ar livre

Os gregos antigos eram dados a fazer tudo ao ar livre. Dos jogos olímpico ao teatro, das festas bacantes à filosofia, tudo se fazia na rua. Não era pois de estranhar encontrar-se na ágora, no mercado público das cidades-Estado, os sofistas, bons oradores, gramáticos e retóricos, que vinham ofertar ao público, rivalizando com o vozerio dos vendedores de beringelas, de uvas e azeitonas, seus preciosos serviços. Se até os deuses no alto do Olimpo refestelavam-se a céu aberto, o que dizer dos mortais que se propunham a ensinar?

A História é o relato dos muros

reprodução (mapa de Hecateu)
Gregos e bárbaros
Logo, a História também nasceu assim, na aragem, apanhando sol. Heródoto de Halicarnasso, carregando o primeiro livro dedicado a Clio, punha-se a lê-lo em público. Dizem que aparecia nos encontros religiosos, nos ginásios e mesmo nos treinos dos atletas, empolgando a todos com sua verve. Contava a eles - "para que não se desvanecesse como o tempo, a memória dos feitos dos homens públicos" - as maravilhosas façanhas dos gregos e dos bárbaros. Seguia-se então, a partir dos raptos de Io e de Europa, um desfiar de enfrentamentos entre aqueles dois universos, o do heleno, altivo e livre, e o do inculto e submisso bárbaro. Nasce pois a história para narrar a existência dessa desunião feita por um invisível muro de hábitos, de línguas e de costumes.

Os muros concretos

Uns dois ou três séculos antes de Heródoto, que viveu no século V a.C., os Zhou, uma dinastia chinesa, decidiram-se também separar a terra em dois, dando início para tanto à construção da afamada Muralha da China. Completada depois pelos Ming, ela estendeu-se por mais de seis mil quilômetros, do nordeste para o norte da China. Foi a mesma lógica que levou, bem mais tarde, no ano de 123, ao imperador Adriano, a concluir nas partes altas da Inglaterra o seu muro, o Muro de Adriano.
reuters
Muralha da China, 7200 quilômetros de extensão
Construção que se somou às demais barreiras antibárbaras dos rios Reno e Danúbio, reforçadas pelo Império Romano. Se bem que menor do que o chinês, a muralha fluvial e a parede Adriana, juntas, manifestavam as mesma intenções: desunir o mundo. De um lado o civis romanus do outro o tumultus barbarus.

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