O Mundo Puro das Montanhas
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O cenário favorito de Leni, os Alpes
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O mundo de Junta era outro. Ela era um pássaro dos Alpes, os quais ela percorria livremente aspirando o cristalino dos seus cimos elevados ainda não contaminados por ninguém. Ao redor dela tudo era rarefeito, permitindo que nada viciasse a sua inocência de menina camponesa. O panorama em que ela se movia era um arquétipo sonhado pelo romantismo alemão, pródigo em aproximar a natureza do imaculado. Para o público fiel aos "filmes de montanha", o contraste era gritante. Enquanto Lola vivia confinada e degradada nos bastidores sórdidos, a bela Junta passou a simbolizar o ideal nacional-socialista de castidade, de virgindade, uma espécie de santa nazista lutando para preservar os valores mais autênticos da feminilidade ameaçada pela vilania da sociedade burguesa.
A Eleita do Führer
"Entendendo a ressurreição do nosso povo como a nossa tarefa, nós não vemos só os sofrimentos provocados pela economia mas também as ameaças à cultura, não apenas as necessidades do corpo, mas também as da alma. Não podemos esperar nenhuma ressurreição do povo alemão sem um renascimento da cultura alemã e, acima de tudo, da arte alemã."
Hitler, no lançamento da pedra fundamental da Casa da Arte Alemã, 15/10/1933
Quem apresentou Leni a Hitler foi Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda do III Reich e que também era seu fã. Hitler encantou-se com a grande estrela da UFA (a estatal alemã de cinemas), não tardando em perceber-lhe o talento. A festa do partido em Nuremberg estava próxima, se daria em setembro de 1934, e ele entregou a Leni a responsabilidade de documentar o comício-monstro que estava preparado para a ocasião. Pela primeira vez, desde que se tornara chanceler da Alemanha, em janeiro de 1933, o
Führer iria ao encontro do seus partidários. O ditador determinou que propiciassem todas as condições para o cumprimento da difícil tarefa e que ninguém do partido a atrapalhasse. Foi assim que surgiu o
Triumph des Willens (o
Triunfo da Vontade, 1934), um dos mais notórios e bem sucedidos filmes de propaganda do século XX.
O Triunfo da Vontade
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Montagem de um ópera trágica para a Alemanha
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O titulo do documentário era de inspiração nietzscheana. Foi sugerido a Leni por Hitler em pessoa. Baseava-se no clássico livro do pensador, morto em 1900, e que era admirado por Hitler: o
Wille zur Macht (
A Vontade do Poder). Tratava-se da afirmação literária e filosófica do efeito da força de vontade e da busca do poder pelos homens determinados. As imagens mostradas ao mundo em 1 hora e 49 minutos de projeção pelas múltiplas câmeras de Leni eram impressionantes, fascinantes e assustadoras. Milhares de militantes vindos de todas as partes da Alemanha, trajando uniformes impecáveis da SA e da SS, empunhando suas bandeiras e suas insígnias, organizados e enfileirados como autômatos, marchando ao som dos clarins e ao rufar dos tambores marciais, prestavam sua homenagem fanática ao pequeno homem-deus, ao salvador que, depois de desfilar por entre 200 mil partidários em silêncio respeitoso, ascendeu à tribuna imperial do estádio tal como um messias moderno, como se fosse um Moisés trazendo as tábuas sagradas da nova lei. As tomadas de Leni, frenéticas, percorriam tudo. Dos rostos dos milicianos à cruz suástica fixada nas enormes bandeiras que se desprendiam do alto do estádio, dali para um close sobre os taróis. Então, colocada em um elevador atrás do palanque de Hitler, filmava a impressionante caminhada do
Führer em meio ao povo fardado e disciplinado. Foi um assombro. Tratava-se de um épico do movimento nacional-socialista, no qual a massa e seu guia tomavam o poder na Alemanha em meio a um júbilo marcial e patriótico, filmado como se fora uma coreografia megalomaníaca de Richard Wagner.
A Estética Neopagã
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Cartazes dos jogos olímpicos de 1936
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A exuberância técnica do filme de Leni Riefenstahl e a escolha dos ambientes externos, enfocando tudo ao ar livre, tinha também um outro significado. Negar, opor-se com veemência a tudo o que anteriormente, nos tempos da República de Weimar, entendia-se como sendo a característica mais marcante do cinema alemão. Com sua estética neopagã, dando close em tipos arianos com seus corpos perfeitos (como ela fez no
Olympia, o documentário que cobriu os Jogos de 1936), sempre atuando a céu aberto, ela queria sepultar para sempre a estética expressionista até então dominante nos filmes dos anos 20.