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A Atualidade de La Mettrie
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Fabricando o robotrix (Metróplois, 1926)
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Em notável artigo, síntese das concepções de La Mettrie (Caderno Mais, Folha de S.Paulo, 6/5/2001), Sérgio Paulo Rouanet assinalou os seguintes pontos que sinalizam a atualidade do pensamento dele:
não há fronteira entre o mundo humano e mundo animal (fato que tem sido reiteradas vezes comprovado pela genética recente);
 os deuses do Olimpo provavelmente foram os precursores das atuais experiência transgênicas ao criarem seres híbridos, metade humanos, metade outra coisa qualquer (sereias, faunos e centauros);
 o culto ao médico consagrou-se. A profissão ligou-se objetivamente com a moderno e através das experiências aplicadas, fazendo dele um eminente conselheiro do Estado, transformando a saúde pública e as medidas sanitárias preventivas em estratégias sociais. Nem um impedimento político poderá criar-lhe obstáculos, ao mesmo tempo em que ele se torna a chave da política;
 o materialismo dele deu um golpe de morte na concepção religiosa do mundo. O homem afirmou-se como o novo Prometeu, criatura e parceiro da criação de outros homens. O cientista-demiurgo adonou-se do espaço antes ocupado pela deidade, não podendo-se evitar que ele altere as espécies existentes ou crie novas, inusitadas, produzindo seres artificiais in vitro e pela inseminação artificial (a robótica que irá gerar andróides). Definitivamente o sacerdote com sua roupeta ou batina preta, cedeu lugar na sociedade moderna ao doutor de jaleco branco, fazendo com que a escuridão da morte fosse seguida pela claridade resplandecente da vida;
 o monismo de La Mettrie superou o dualismo cartesiano. O corpo não é um sacrário, o refúgio, abrigo ou prisão da alma, sendo gradativamente visto como objeto de comércio (patentes de gens, mercantilização de órgãos, etc.), mas provocando também a emancipação dele da tirania moral (os jejuns obrigatórios, a martirização, a auto-flagelação, as punições e os castigos físicos, etc.). Ele, o corpo, é a única realidade do homem! Cabendo ao pensamento ser a expressão da matéria. Explica assim a obsessão moderna com a manutenção dele, com as preocupações físicas e estéticas concentradas no bom funcionamento e na aparência geral do organismo, afastando do corpo a doença e a morte, pois inexiste outra instância que lhe seja superior. Por isso a imagem do santo pálido e descarnado, por vezes ensangüentado, existentes na simbologia cristã, foi abandonada em favor das atuais figuras de vigor que povoam o mundo da publicidade;
 o crime, por sua vez, ele viu-o como conseqüência de certas predisposições biológicas sobre as quais pouco efeito têm as perorações e admoestações dos predicadores, educadores ou juízes, pois é o "organismo que determina o essencial da vida do homem".
Bibliografia
Cottingham, John - Dicionário Descartes (J.Zahar, RJ., 1995)
Descartes, René - El tratado del hombre (Alianza, Madri, 1990)
Dubois, René - Los sueños de la razón (FCE. México, 1976)
La Mettrie - O Homem-máquina (Estampa, Lisboa, s/d)
Rouanet, Sérgio Paulo - Do homem-máquina ao homem-genoma (Caderno Mais, Folha de S.Paulo, 6/5/2001)
Yolton, John (org.) The blackwell companion to the Enlightenment (Blackwell, Londres, 1996)
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