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Alma sem corpo não existe

No acampamento mesmo tratou de colocar o que concluíra no papel, pois percebera claramente que o pensamento era conseqüência da máquina (expressão cartesiana que a qual ele tinha muito apreço) e não algo alheio, fora dela. Se ela não funcionava, tudo parava. Logo, era a matéria que gerava o espírito. Foi um deus-nos-acuda. Nem bem ciente do conteúdo do A História Natural da Alma, o capelão do seu próprio regimento tocou o sino do alarma, açulando a tropa contra o monstro ateu que ali estava a bivacar com eles. Nada teme mais um soldado do que ir para uma batalha sem imaginar que haja alguma esperança de vida no além.

gravuras de Vesalius

Os corpos

O negrume e a sem-razão da morte lhe é intolerável. De nada adiantou a La Mettrie revoltar-se contra as assertivas dos padres, reclamando que o seu livro só deveria ser lido por outros médicos e não por neófitos de batina cujo ganha pão era extraído da superstição. Mas nem os médicos o apoiaram.

O Lamettrismo


Vesalius

Aula de anatomia, não existe nada além do corpo

E não era para menos que tivessem sentimentos hostis para com ele. Viram-no um herege, um pária da sua profissão. As conclusões morais e éticas a que ele chegara eram completamente antagônicas aos primados teológicos e ao censo comum daquela época. Não havendo alma, o livre-arbítrio e todo o conjunto de preceitos morais que o acompanha era uma ficção. Sob o ponto de vista da máquina que nós somos, agir bem ou mal é indiferente. Ser gentil ou malvado, doce ou amargo para com os outros, não afeta o funcionamento da aparelhagem de nervos, sangue e músculo de que somos feitos. E, evidentemente, no dia que a máquina parar, data que também não é determinada ou influenciada pela moral, nada mais resta. Se há alma, ela some junto ao seu invólucro (*). Portanto, seguindo os preceitos dos epicuristas, não há mal nenhum em levar um vida liberta dos esconjuros da religião e dos medos do inferno. Façamos o bem por si mesmo, sem interesses salvacionistas, na ilusão de ir parar no além ao lado do Senhor. Se não existe alma, há porém pensamento. E este vem do cérebro e não de Deus.

(*) Charles Nicolle, médico e microbiologista francês, ganhador do prêmio Nobel de 1928, na obra Naissance, vie et mort des maladies infectieuses, na esteira de La Mettrie, demonstrou que os aspectos biológicos da vida estão governados por forças independentes da intervenção humana consciente (isto é, dos seus princípios morais e éticos).

A Utopia Médica de La Mettrie


reprodução

Descartes, a visão mecanicista do corpo

Pois então se o corpo é o centro de tudo, quem trata dele é o imperador informal da sociedade. Os doutores, para La Mettrie, como expôs na sua utopia médica A política dos médicos, seguramente assumiriam funções extraordinárias na sociedade do futuro. Conhecendo os mínimos detalhes do funcionamento do equipamento, a razão de ser das mais insignificante peças do maquinismo humano (que segundo ele ativava-se de acordo com as leis da hidráulica e da mecânica), eram eles os donos do devir. Não havendo nada depois da morte, a vida assume então uma relevância extraordinária. Ela é o sentido de tudo. O médico, guardião da saúde, responsável pela existência, será o grande estrategista do Estado. Sentará ao lado do rei e lhe soprará o que, quando, e como fazer, no sentido de preservar a sociedade. Se bem que La Mettrie não advogasse o poder direto para o médico-filósofo, como outrora Platão reivindicou para o filósofo-rei, ele levou às conclusões últimas o que Descartes já havia exposto ao desenhar a sua árvore da vida, dando um lugar na copa, isto é junto ao poder, para a Medicina. Em termos puramente corporativos, ele queria afastar os sacerdotes, responsáveis pela pureza das almas, opondo-lhes os médicos, os mantenedores dos corpos.

Na Estrada da Vida


reprodução

Um antigo médico militar como La Mettrie

Perdido o emprego, afastado dos hospitais, abandonado pelos pacientes, inimizado com os padres e com seus colegas de profissão (de quem ele se vingou no polêmico Penélope, criticando-lhes a vaidade), voltou-se inteiramente para a especulação filosófica. O resultado foi o seu Homme-machine, o homem-máquina, um devastador ensaio ultra-materialista que circulou em 1748. Expulsaram-no da França. Acompanhado da fama de filósofo maldito e perseguido, ele atravessou a fronteira da Prússia em busca de abrigo. Frederico, o Grande, o rei-sábio, deu-lhe acolhida. Não só isso. Talvez para ferir os franceses, indicou La Mettrie para a Academia Real de Ciências de Berlim, ofertando-lhe ainda uma generosa pensão. Frederico II divertiu-se muito com o humor e as gaiatices do seu protegido. Morreu de congestão. Parece que empanturrou-se com um delicioso pastelão que lhe ofereceram na casa do embaixador francês em Berlim, M. Tirconnel. Assaltado por um febrão, entrou em delírio e faleceu no dia 11 de novembro de 1751. O rei enterrou-o com pompas.





 
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