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Sexo & Barulhos
na Vida de Kant

reprodução
O filósofo alemão Emanuel Kant, visto ter levado um existência de rigor, sempre entregue aos seus pensamentos e dominado por suas manias de solteirão assumido, tornou-se alvo ao longo desses últimos dois séculos, desde que morreu em 1804, de toda a sorte de brincadeiras. Viram-no como exemplo do mestre pedante e idiossincrático, imagem de resto tão comumente associada aos pensadores, gente distraída e um tanto fora do mundo. Provocou, faz pouco, uma certa sensação no mundo editorial um pequeno livro dedicado a ele com o hilariante título de A vida sexual de Kant, uma divertida brincadeira de um jornalista francês que passou por uns tempos como coisa de gente séria.


tela de J.H.Füssli

Haveria um Kant com vida secreta?

O Coral Infernal dos Presos

Certo dia, o prefeito de Königsberg, o longínquo porto Báltico da Prússia Oriental, recebeu uma visita ilustre, mas inesperada. Era Emanuel Kant, o filosófo da cidade que vinha fazer-lhe uma queixa. Haveria a possibilidade, argüiu o pequeno homem (ele media pouco mais de metro e meio), do burgomestre fazer com que o presídio municipal, vizinho à morada de Kant, fechasse as janelas na horas das cantorias do presos? O barulho, alegou o querelante, era terrível, impedindo-o de raciocinar. Além disso, ele como racionalista, não acreditava que aquele vozerio suplicante fosse deixado de ser ouvido pelos generosos tímpanos de Deus. O todo-poderoso, seguramente, garantiu Kant, os escutaria mesmo que as malditas janelas estivessem cerradas.


Königsberg

Uma das casas onde Kant morou

O estrago maior dava-se no fato de que aquele coral dos apenados atingia em cheio as suas "faculdade gerais de ânimo", provocando nele uma "sensação de desprazer" que conduzia a afetar gravemente a sua "faculdade de juízo", fazendo com que toda a "sensibilidade estética" dele viesse abaixo. Imagine-se a cara do pobre prefeito.

A Guerra Contra o Galo


tela de I. Bilibin

O galo, o tormento do filósofo

Uns tempos antes, Kant, já sexagenário, solteirão dado à neurastenia, envolvera-se numa hilariante batalha contra um outro vizinho seu em função de um galo estridente. O tipo teimava em cocoricar nas horas mais improváveis da madrugada. Kant fez de tudo para o homem livrar-se dele. Após ter submetido inutilmente o teimoso aos rigores implacáveis da dialética transcendental, ofereceu-se para comprar-lhe a ave. O vizinho, firme, resistiu com o galo embaixo do braço. Pois se Sócrates morreu devendo um galo a um seu próximo, Kant passou um bom tempo infernizado pelo do seu vizinho, que seguramente não era o galo de ouro da lenda russa.

Pavor às Cantorias


reprodução

Nem um coral de divinos gregos seria tolerável

Para ele que, com uma disciplina de oficial prussiano, fizera do seu corpo numa precisa e meticulosa máquina de pensar, qualquer ruído tinha o efeito paralisante. Estancavam-lhe as engrenagens mentais. Esta obsessão pelo silêncio é que o levou a comentar num dos seus impenetráveis ensaios (Crítica da faculdade de Juízo, 1790) que aqueles que recomendavam (isto é, os pastores e os padres) às pessoas que fizessem exercícios espirituais domésticos, acompanhados pela inevitáveis cantorias de hinos religiosos, "não calcularam o dano que aquelas orações ruidosas (e, por isso, geralmente farisaicas, acrescentou ele) provocavam na vizinhança, forçando a que os acompanhassem ou que simplesmente os obrigassem a parar de pensar".





 
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