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Humboldt na Amazônia



"Tudo demonstra a grandeza do poder, a ternura da Natureza, desde a boa constrictor, capaz de engolir um cavalo, até o colibri, capaz de balouçar-se no cálice de uma flor." - Alexander von Humboldt, 1800

O sentinela estranhou-lhe a presença e os gestos. O que fazia aquele branco desconhecido, com a cara mordida pelos mosquitos, no meio da selva erguendo uma luneta para todos os lados? Naquela mesma noite, numa rápida operação, o naturalista alemão Alexander von Humboldt foi preso por uma patrulha portuguesa. Acusaram-no de espionagem. Transpusera sem querer os supostos limites que, em plena floresta amazônica, separavam o império espanhol do lusitano. Como poderia o pobre homem saber em meio ao colossal verdor qual árvore ou cipó, qual córrego ou igarapé, era o marco exato da fronteira?

O oficial que o interrogou espantou-se por ele ter saído da longínqua Alemanha para, entre outras coisas, medir com precisão o curso do Casiquiare, o rio que ligava o Orinoco ao Amazonas. Um baú apreendido, carregado de sextantes, barômetros e um taqueômetro, encheu-o de suspeita. Devia ser um espião sim! Decidiu-se então confiscar todo o material do naturalista, dele e do seu companheiro de aventuras, o francês André Bonpland. Felizmente a presença conciliadora do padre Zea, um espanhol que os acompanhava, fez com que o luso enviasse um praça até o Belém do Pará para receber instruções. A capital amazônica porém ficava distante bem mais de 3 mil quilômetros de onde os detiveram e nunca mais se soube do mensageiro. Oito meses depois Humboldt foi liberado. Anos depois, o Brasil já independente, convidaram o naturalista para atuar como árbitro numa desavença de fronteira entre nós e a Venezuela. Humboldt, mostrando-se sem rancores, votou favorável ao Brasil.

Esse incidente foi um dos tantos outros, um tanto cômicos, sofridos pela expedição de Humboldt na Amazônia em 1800. Uns meses antes da sua detenção, ainda do lado venezuelano, Humboldt interessara-se pela história que os índios lhe contaram do peixe que dava choques. Para provar sua existência fizeram com que os cavalos que acompanhavam os cientistas entrassem numa lagoa próxima. Não demorou para que os infelizes saíssem apavorados da água, atormentados pelos relâmpagos aquáticos lançados pelas enguias. Fascinado, Humboldt tratou de conseguir uma delas para dissecar. Queria saber de onde originava-se a energia. Onde se localizava o seu “dínamo”. Distraído, pisou numa enguia levando uma violenta descarga. Não teve dúvidas: chamou-as de electrophorus electricus.

A paixão de Humboldt por desbravar o mundo desconhecido veio-lhe cedo. Quase de casa, da infância passada no castelo de Tegel em Postam, nas proximidades de Berlim. Quem excitou sua curiosidade foi um amigo do seu pai, um tal de George Forster que navegara com o célebre Capitão Cook, na sua segunda viagem ao redor do mundo em 1776-8. Desde então o jovem Alexander não mais se aquietou.

De posse de uma Cédula Real obtida junto ao rei Carlos IV da Espanha, Humboldt embarcou para a América do Sul em 1799. O nome de Humboldt imortalizou-se. Não há compêndio cientifico que não lhe faça referência, seja como o fundador da Geografia Humana, ter revelado as causas das cores diferenciadas dos rios amazônicos, ou ainda pela descoberta da corrente marítima que leva o seu nome - a corrente de Humboldt -, motivo da existência do deserto de Atacama e da extrema piscosidade das costas peruanas.

Até o fim deste ano um grupo de cientistas brasileiros, liderados pelo historiador Victor Leonardi e pelo biólogo César Martins de Sá - sabendo do roteiro que Humboldt pretendia cumprir, não fosse a obtusidade daquela guarnição de fronteira -, decidiu, 200 anos depois, completar-lhe o trajeto. Partirão da localidade de Cucuí e, descendo em direção à Manaus pelo Rio Negro, navegarão durante 71 dias coletando material até aportarem em Belém. Essa expedição, no dizer de Leonardi, simboliza, ainda que tardiamente, “uma dívida histórica a saldar”, um pedido de desculpas póstumo, pois o vice-rei no Rio de Janeiro, assim que soube da passagem do sábio Humboldt pela Amazônia determinou que não o deixassem entrar no império português e que se ele assim o fizesse que o levassem preso!



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