BUSCA + enter






Um Mosteiro de Filósofos

Depois de ter renunciado à reitoria de Freiburg em abril de 1934, um tanto frustrado, Heidegger tratou de levar uma nova idéia ao Ministério da Cultura em Berlim: a Dozentakademie. Tratava-se do projeto de criar na capital alemã uma academia de docentes pela qual todos os que desejassem ser catedráticos nas universidades do Estado nacional-socialista deveriam obrigatoriamente passar. Seria algo parecido como um mosteiro de filósofos, onde gente vinda de todas as partes teria uma vida regrada
reprodução

   Um invólucro antigo contra o    moderno
de acordo com as determinações monacais, entremeadas, porém, com exercícios militares. Uma vida em comum, simples, ascética, dedicada ao estudo, com a pretensão de renovar e ir além do cientificismo americano "partindo de suas necessidade interiores" (seja lá o que isso significava na linguagem heideggeriana).

Uma Mente Labiríntica

reprodução

A.Rosemberg, ministro da cultura do Terceiro Reich
Naturalmente que Heidegger, como proponente, esperava que fosse ele o indicado pela alta burocracia como o abade-filósofo nesta tentativa de superar a ciência especializada (característica da era da técnica, que pessoalmente abominava). As reações não tardaram. O ministério Rosemberg foi alertado, entre outros pelo psicólogo Jaensch, para não entregar o futuro dos cérebros científicos da Alemanha nacional-socialista a uma mente tão labiríntica, "esquizofrênica", confusa e excêntrica como a de Martin Heidegger, cujo ensino teria efeitos pedagógicos "devastadores". Terminou sendo preterido, não por razões ideológicas mas em função do temor que sua maneira nebulosa, obscura, incompreensível de expor suas idéias, causaria na instituição. O projeto revela, acima de tudo, as acomodações impossíveis que caracterizaram Heidegger e mesmo a própria revolução conservadora a quem ele aderira (o "modernismo reacionário" como o denominou Jeffrey Herf). Para combater a crescente especialização científica dos tempos modernos ele imaginou, talvez como resultado da nostalgia dos seus sonhos de menino de igreja, nada menos do que restaurar as condições de um eremitério medieval!

O Fim

Heidegger, depois de 1945, com a derrota do Estado nazista foi proibido por decreto de ensinar na universidade alemã até 1949, após ter sido submetido a um inquérito. Neste espaço de tempo, devido a Jean Paul Sartre e a outros intelectuais franceses que o admiravam, o existencialismo ganhou o mundo. Tornou-se, no após-guerra, a principal "moda" intelectual entre os bem-pensantes europeus e até norte-americanos pelo menos até a entrada dos anos 60. A tortuosa e oblíqua terminologia heideggeriana, que um crítico de direita denominou de "alemão talmudista", produto de um "esquizofrênico perigoso", inundou o universo acadêmico internacional até bem recentemente. A sua filosofia como se sabe não legou um sistema, mas inquietações: um instrumento para perguntar e questionar mas não para responder. De certo modo pode-se considerá-lo como "o" filósofo na medida em que ele procurou
reprodução

   M.Heidegger    (1889-1976)
manter, de modo intransigente, a filosofia afastada da sociologia e da ciência, dois totens modernos que a cercavam por todos os lados. Heidegger, que morreu em 26 de maio de 1976, nunca retratou-se do seu apoio ao nazismo. Certamente o seu imenso orgulho e a sua inquebrantável arrogância, resultante da consciência de ser considerado o maior filósofo da Alemanha no século XX, impediu-o de reconhecer a enormidade do seu erro.

Cronologia

Data Acontecimento
1889 Martin Heidegger nasce no dia 26 de setembro em Messkirch, filho de um sacristão local (região da Floresta Negra na Suábia)
1903 Bolsista no Ginásio em Constança, preparação para a vida sacerdotal, envolvido em atividades intelectuais anti-modernistas
1915 Tese de livre docência sobre Duns Scotus (1266-1308)
1918-23 Discípulo e assistente de Husserl, rompimento com o catolicismo. Derrota do Reich alemão na Guerra de 1914-18
1923 Início da celebridade devido suas conferencias sobre a Ontologia, tornando-se "o rei secreto da filosofia alemã"
1927 Edição do "Ser e Tempo", obra que o consagrou como grande pensador
1929 Confronto com E.Cassirer em Davos: existencialismo x neokantismo
1933 Nazistas no poder: reitor na Universidade de Friburgo, afastando-se dela um ano depois
1934 Fracassa sua abadia de sábios em Berlim, retira-se de volta para a filosofia
1936 Conferências sobre Hölderlin e Nietzsche
1945 Derrota da Alemanha nazista na IIª Guerra Mundial. Heidegger proibido de lecionar
1953 Reintegrado no clima da Guerra Fria, reinicia sua carreira filosófica
1976 Morre em 26 de maio, sendo enterrado em Messkirch em exéquias católicas

  Leia mais:
 » Heidegger e a Filosofia da Irrupção

Heidegger e o ser-no-mundo | O Cenário do Pensamento Alemão | O Fim das Incertezas | A Cultura de Weimar | O Caleidoscópio Cultural | O Menino de Messkirch | Nasce uma estrela | Existencialismo e Fenomenologia | Linhas Abertas | A Revolução Parda | Um Mosteiro de Filósofos | Uma Mente Labiríntica | O Fim | Cronologia | Bibliografia

| |



 ÍNDICE DE CULTURA E PENSAMENTO





 
 » Conheça o Terra em outros países Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2002,Terra Networks, S.A Proibida sua reprodução total ou parcial
  Anuncie  | Assine | Central de Assinante | Clube Terra | Fale com o Terra | Aviso Legal | Política de Privacidade