O Caleidoscópio Cultural
 |
|  |

|
Brecht no clima de Weimar
| 
|
Um caleidoscópio que mostrou uma incrível e inusitada diversidade cultural, onde imagens tortuosas, deliberadamente deformadas, alternavam-se com linhas retilíneas, funcionais, onde cenografias visando a politização intercalavam-se com exposições filosóficas despolitizantes, tudo isso em meio a muita briga de rua entre comunistas e nazistas. Neste cenário confuso, caótico, de descrença absoluta e de desesperada necessidade de esperança, onde os extremos ideológicos se enfrentavam em cada esquina da Alemanha, nasceu o existencialismo de Martin Heidegger.
O Menino de Messkirch
Martin Heidegger nasceu no 26 de setembro de 1889 em Messkirch, um lugarzinho da Suábia, nas proximidades da Floresta Negra - coração romântico da Alemanha - filho de sacristão católico, muito modesto, situação que o garoto escapou de repetir graças a uma bolsa de estudos que lhe permitiu ir estudar, a partir de 1903, no liceu de Constança. Entrou para o seminário em Friburgo em 1909 e no ano seguinte ensaiou o seu primeiro escrito em favor do monge Abraham a Sancta Clara, um importante sermonista barroco do sul da Alemanha, um xenófobo e anti-semita que morrera em 1708, o qual provavelmente afirmou ainda mais o caminho dele para interessar-se pelos místicos alemães e depois pelo escolástico Duns Scotus (um crítico da razão falecido em 1308).
Da mesma forma que Nietzsche, filho de um pastor, jamais deixou de estar psicologicamente ligado às coisas da religião, Heidegger, ainda que ambivalente, nunca desvinculou-se da sua predisposição à mística, daqueles seus anos de infância de menino-sineiro e de seminarista.
Foi assistente de Edmund Husserl, o fundador da fenomenologia, praticamente desde que o mestre chegara à Universidade de Friburgo em 1916. No universo acadêmico alemão daquela época ninguém destoava da política de pleno apoio à guerra em defesa dos interesses do II Reich e, quando a república democrática foi implantada, sucedendo o regime do Kaiser, a imensa maioria dos docentes, todos ultraconservadores, não escondia o desprezo por aquele "governo de judeus", como normalmente eles se referiam à República de Weimar.
Nasce uma estrela
 |
|  |

|
Husserl, o mestre de Heidegger
| 
|
Para onde o desamparado olhar do homem europeu sobrevivente da matança de 1918, poderia voltar-se? Os macrossistemas de Kant e de Hegel, as manifestações maiores do olhar racional sobre o mundo, estavam abaladíssimos, assim como a fé em Deus. Qualquer que ele fosse. Como imaginar um Ser Supremo, magnânimo e bondoso, para uma geração que viu Verdum, a batalha do Somme, a morte vinda pelo gás, pelos bombardeios inclementes, os corpos mutilados pela metralha apodrecendo nas trincheiras de toda a Europa? A isso juntou-se o fato de que por toda a parte as dinastias que por séculos controlavam os destinos das gentes afogaram-se num piscar de olhos no maremoto revolucionário de 1917-1918. Do dia para noite foram-se os Romanovs, os Hohenzollers, os Habsburgos e outros dinastas menores, varridos pelos povos que gritavam por sua emancipação e liberdade. A queda de Deus, do rei, e da metafísica clássica, fez com que Heidegger, rompido definitivamente com o catolicismo desde 1919, concentrasse o seu interesse no ser, no ser-aqui, na existência (
Dasein), vindo a ocupar o vácuo deixado por um "mundo sem Deus", anunciando-se no cosmo filosófico alemão como uma nova estrela do amanhã.
Heidegger e o ser-no-mundo |
O Cenário do Pensamento Alemão |
O Fim das Incertezas |
A Cultura de Weimar |
O Caleidoscópio Cultural |
O Menino de Messkirch |
Nasce uma estrela |
Existencialismo e Fenomenologia |
Linhas Abertas |
A Revolução Parda |
Um Mosteiro de Filósofos |
Uma Mente Labiríntica |
O Fim |
Cronologia |
Bibliografia
|
|