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O Prelo Luminoso de Gutemberg


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Apesar de existir há cinco século e meio, a imprensa moderna criada por Johann Gutemberg, ao redor de 1450, nunca foi um invento pacífico. Desde os seus começos, a nova arte de imprimir livros provocou temores de toda ordem, pois, para muitos, o livro saído de um prelo, e não da tinta de um monge escriba, tornou-se uma força subversiva, capaz de abalar a fé e de reduzir a autoridade da igreja. Mais recentemente, com a difusão crescente das imagens pela mídia, as profecias deram para prognosticar o fim da palavra impressa, anunciando para todos os cantos o desaparecimento da Galáxia de Gutemberg.

O livro e a Igreja

"A invenção da imprensa é o maior acontecimento da história. É a revolução mãe... é o pensamento humano que larga uma forma e veste outra... é a completa e definitiva mudança de pele dessa serpente diabólica, que, desde Adão, representa a inteligência."

Victor Hugo, Nossa Senhora de Paris, 1831


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A Bíblia de Gutemberg

Abrindo a janela do seu claustro, o arcediago dom Cláudio Frollo, apontado o dedo para o imponente edifício da Igreja de Notre Dame de Paris, emoldurada a sua frente por uma noite de estrelas, com a mão sobre um livro, disse ao seu visitante, o doutor Jean Coictier, médico de Luis XI: Ceci tuera cela, "isto há de matar aquilo" - o livro acabará com a igreja! Mesmo ele sendo um homem de cultura, um apaixonado alquimista, suas palavras denotavam tristeza, porque, afinal, dom Cláudio era um sacerdote e lamentava com aquele gesto o princípio do fim do seu mundo, o da Galáxia Teológica.

A Galáxia Teológica


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Notre Dame de Paris

Composta por catedrais, igrejas, capelas, mosteiros, conventos e os mais diversos tipos de retiro, era tal galáxia habitada por milhares de padres e freiras, organizados em ordens santas espalhadas por quase toda a Europa, ao redor de quem flutuava uma poeira cósmica de peregrinos, penitentes e pecadores de todos os tipos. Sustentada pelos dízimos - a primeira lei da gravidade do mundo religioso - e pela fé das gentes, a Galáxia Teológica, depois de um império de mais de mil anos, estava com seus dias contados. E tudo por causa daquele invento. Era o púlpito e o sermão, o manuscrito do monge, que recuavam assustados com o produto do prelo de Gutemberg. Foi assim que Victor Hugo registrou na novela Nossa Senhora de Paris, de 1831, o hipotético impacto da introdução do novo engenho entre a gente letrada da época.

Pedras e palavras


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J. Gutemberg (1400?-1468)

Até o século XV, dizia ele, num mundo de analfabetos, a humanidade comunicava-se com pedras, empilhando-as e arrumando-as das mais variadas formas para expressar a fé (as igrejas), o poder (os castelos), o luxo (os palácios), a propriedade (o muro), a punição (o cárcere), a pobreza (os casebres), e a morte (as lápides). Com Gutemberg tudo aquilo deixava de ter sentido. O livro impresso seria a pedra dos tempos futuros. O construtor dos templos do devir.





 
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