Tumultos Perigosos
Administrando a escassez como dava, Gauguin assumiu a cozinha, Vicent as compras e a limpeza geral da casa. Era no segundo piso de um prédio de esquina, que, depois, por anos a fio foi ocupada pelo Grand Café Tabac, até ser destruído por uma bomba dos aliados na
II Guerra Mundial. Chamavam-na a Maison Jeune, a Casa Amarela, que foi imortalizada numa tela de Van Gogh. Confinar os dois artistas no mesmo teto era ver dois vulcões em ebulição simultânea. Vicent recebia a sua inspiração vinda de fora, do contato com a paisagem, era movido pelo sol, Paul, ao contrário, se bem que não negasse o meio, retirava de si mesmo, do seu interior, tudo aquilo que fosse preciso para preencher uma tela. Para piorar a relação deles, o inverno de 1888 foi
tenebroso, afogando-os a aguaceiros. Os prometidos dias de sol de Van Gogh ficaram apenas no desejo. Trancados em casa, saturados de absinto, a perigosa bebida da boemia européia, foi inevitável que os dois partissem para um desentendimento crescente, que as discussões deles em torno de Rembrandt ou Delacroix só os exasperavam ainda mais.
A Mutilação
Provavelmente, Paul deu-se contra que a loucura de Vicent era um caso perdido. Na noite de Natal, andando pela rua, ele sentiu-se seguido. Ao virar-se para ver quem era deparou-se com Vicent, com um olhar desvairado, empunhando uma navalha. Ao ser reconhecido, desatou a correr. Paul, que já havia se mudado para um pequeno hotel, tratou de voltar para Paris. No dia seguinte, porém, ele foi avisado do desatino de Vicent. O seu amigo havia cortado parte da orelha e a enviado, enrolada num lenço, a uma das rameiras, vizinhas dele. A cama e o quarto de Vicent havia se transformado numa grande poça de sangue.
Theo e Vincent
"A arte é ciumenta, não lhe agrada ficar em segundo lugar. Antes ainda eu tinha humor... Aquilo que eu quis e tive como meu objetivo tornou-se uma infernal dificuldade para alcançar, e agora eu penso que coloquei minhas visões muito no alto. Eu quero é desenhar o que toca as pessoas."
(Van Gogh ao irmão Theo em 21 de julho de 1882)
Quem mantinha Vincent na sua intenção de ser pintor era o seu irmão mais moço Theo Van Gogh, um modesto, mas premonitório, negociante de artes em Paris, que nunca poupou um tostão sequer para ajudá-lo. Graças a intensa correspondência trocada entre eles, entre Vicente e Theo, felizmente preservada, sabe-se com detalhes da evolução da pintura de Van Gogh, bem como suas impressões gerais sobre a arte, a dele e dos outros. Pelas cartas percebe-se como Vicent era um extraordinário sensitivo, um meticuloso, captando tudo ao seu redor para transformar em arte, em maravilhas extraídas do pincel. Theo, por sua vez, jamais faltou com o irmão, sendo o único a lhe reconhecer a genialidade, apesar de Vicent não ter conseguido vender nada em vida. Ao ser chamado com urgência a Arles para socorrer o irmão mutilado, Theo, desolado, não encontrou outra solução senão interná-lo numa clínica de alienados em Saint-Rémy. Um ano e meio depois, em 1890, Vicent, num outro ataque, dos tantos que já tivera, disparou contra o seu estômago, matando-se aos 37 anos de idade. Theo, seu irmão, logo o seguiu, morreu em 1891, aos 33 anos. Ambos estão enterrados no mesmo local.
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O céu no Ródano e em Saint Rémy visto por um Van Gogh alucinado, verão de 1889
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