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O martírio de Giordano Bruno

A utopia de Bruno

O filósofo porém imaginou que se seguissem suas prédicas públicas, como a que fizera em Oxford em 1583, enaltecendo a doutrina de Copérnico e manifestando-se a favor da restauração da magia e do hermetismo (a linguagem dos sábios egípcios do passado remoto), as brigas cessariam. Olimpicamente desconsiderou o cisma do mundo cristão.

Luteranos e católicos deixariam de se odiar, sonhou, se abraçassem a verdadeira religião nascida à sombra das pirâmides. Repetindo Marcilio Ficino, o filósofo renascentista que fundara a Academia Platônica, morto em 1499, gostava de lembrar que a cruz era, bem antes da crucificação de Jesus, um símbolo sagrado de Isis e fora bordada no peito de Serápis. Numa memorável invocação que ele fez a Asclepius (Esculápio), após descrever o cenário de um mundo melancólico, sofrendo de total inversão, onde "as trevas sepultarão a luz", e só "permaneceriam os anjos perniciosos", não duvidava que Deus poria fim a tal mancha, "chamando para o novo mundo a sua antiga fisionomia". Isto é, restaurando o culto egípcio.

O hermetismo


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Ficino, um hermetista na academia de Florença

Ele criticava o cristianismo ter destruído as honoráveis religiões do passado, pois eram um tesouro de conhecimentos imemoriais. Vira em Hermes Trimegistro - um imaginário sacerdote egípcio que pela santidade da sua vida, pela dedicação aos cultos divinos e majestosa dignidade, consagrara-se como Três Vezes Grande - o fundador da prisca theologia, a teologia antiga, de onde todas as outras derivaram. A doutrina heliocêntrica de Copérnico, que ele difundiu em incontáveis e sensacionais conferências nos meios acadêmicos europeus, pareceu-lhe pois um sinal desse inevitável retorno às crenças desaparecidas.

A doutrina de Copérnico

Para Bruno, o grande astrônomo polonês ao colocar o Sol no centro do cosmos, restaurara a antiga deidade egípcia, restabelecendo o seu incomensurável fulgor. O entendimento que Bruno tinha pois da cosmologia de Copérnico estava mais próximo de um profeta, nada assemelhando-se ao de Galileu, este sim o fundador da física moderna, embebida na matemática, na geometria e na observação direta dos fenômenos celestes, graças à utilização do telescópio. É provavel que Bruno tenha percebido as implicações últimas da adoção do heliocentrismo. O poder da Igreja apoiado na velha concepção cósmica, no geocentrismo de Ptolomeu, não ficaria inerte perante a sua pregação. Mesmo assim foi em frente, talvez a fazer juz ao que certa vez ele aconselhara a um admirador a quem escreveu:

"Persevere, caro, persevere! Não te desencoraje, nem recue jamais porque, com o socorro de múltiplas maquinações e artifícios, o grande e solene senado da ignorância disfarçada, ameaçará e fará destruir o divino empreendimento do teu grandiosos trabalho."

Antecipando o livre-pensar


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A simbologia cabalística atraiu Bruno

Situando-se na tradição renascentista dos simpatizantes da magia e do ocultismo, Bruno acreditava na liberdade, na tolerância, e no direito de dizer-se o que se pensa não importando o reino ou o ducado em que o acolhiam. Era, enfim, um entusiasta do Discurso da Dignidade do Homem, de Picco de la Mirandola. O seu fascínio por formas e maneiras diversas de perceber-se o mundo (interessou-se inclusive pela cabala judaica) derivou dele ver o universo, como lembrou Jacques Attali, "composto por um número limitado de letras elementares em formas geométricas, triângulos, quadrados, círculos, pirâmides curvas, etc." Servindo também estes outros caminhos como uma maneira dele encontrar escapes para a crescente opressão teológica exercida pelo catolicismo contra-reformista.

O mago egípcio


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Bruno, inclinado a ser mago

Não aderindo ao protestantismo, mantendo-se apenas formalmente como dominicano, viu-se como um mago-hermético, uma espécie de sacerdote de Amon renascido na Europa do século 16. Observo que este tráfico de Bruno entre a literatura clássica com a literatura hermética, resultou de certa forma das suas leituras caóticas e vorazes feitas no Mosteiro de San Dominico, onde estudou Pitágoras, Platão, Aristoteles, os interpretes judeus da Bíblia, e inumeráveis tratados de astronomia. Que depois se somaram ao conhecimento de Telésio e ao de Lulio.

Isto fez com que seu vocabulário confundisse muitos dos seus exegetas ao lançar mão de expressões oriundas de uma ou de outra tradição, a racionalista e a hermética. Não afetou porém seu magnífico estilo e até contribuiu para evitar que fizessem dele um dogmático. Esta sua abertura para tudo o que viesse a somar para o conhecimento fez com que ele colocasse no seu templo da sabedoria, além de alguns teólogos não-convencionais, povos antigos, e místicos diversos, que não eram considerados pelo cristianismo como merecedores de atenção. Talvez, suponho eu, na intenção de alargar as sensibilidades do conhecimento e atenuar o preconceito contra o passado pagão da humanidade.

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Bruno em Shakespeare


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O cientista no laboratório de experiências

Frances Yates, a grande historiadora da ciência, sentiu a imagem espelhada de Bruno em duas figuras de William Shakespeare. Tanto em Berowne, personagem de Love's labour lost (Trabalhos de Amor Perdido), como na de Próspero, o náufrago da The Tempest (A Tempestade) - o mago bonachão italiano capaz de embasbacar nativos como Caliban, com seus tubos enfumaçados e aparelhos de ensaio (*). Para escândalo dos teólogos, o filósofo não distinguia mágica boa da má. Como um espada, dizia, as artes do ocultismo eram neutras, podendo fazer-se bom ou mau uso do seu fio, era uma linguagem da natureza e não do demônio. Tanto Moisés como Jesus eram grandes magos para ele.

(*) Bruno, no entanto, ao contrário de Shakespeare, reprovou a conquista da América, bem como o comércio de ouro e prata que se seguiu. Não atribui a nenhum direito especial no homem branco que o autorizasse a submeter os nativos.

Sobre a conquista do Novo Mundo, opinou que ela só servira "para perturbar a paz do próximo, violar as próprias pátrias das regiões, confundir o que a previdente natureza distinguiu, redobrar os defeitos mediante o comércio e agregar vícios aos vícios de cada povo, mediante a violência impor novas loucuras e demências inéditas aonde não existem, mostrando, enfim, ser mais sábio o que é mais forte: ensinar novos cuidados, intrumentos e artes de tirania e assassinar um ao outro" (Ceia..)

Shakespeare, por sua volta, pintou o filósofo na corte de Henrique de Navarra, pondo-lhe na boca um discurso hedonista, sem muito entusiasmo em seguir com rigor a disciplina que o rei, um homem culto e estudioso, desejava impor no seu grupo de estudos. (Ver Cena I, ato I, do Trabalhos de amor perdidos)

Bruno e a infinitude dos mundos

Mas a irritação maior dos inquisidores e do papado derivou da convicção de Bruno, ultrapassando Copérnico, da existência de uma infinitude de mundos e da possibilidade de outras vidas no cosmos (hoje mais do que consagrada pelas imagens que recebemos do telescópio espacial Huble). Citando Epicuro e Lúcrecio, celebrava outros tantos sóis, e outros tantos planetas. Essa idéia veio-lhe porém de Nicolau de Cusa, o humanista alemão que na sua consagrada, mas então pouco divulgada obra De docta ignorancia (A douta ignorância, 1440), onde antecipou Copérnico. Assegurou haver movimento da Terra e a sua rotação ao redor do Sol, rejeitando o mundo fechado e finito de Aristóteles, dizendo não haver centro no universo e que "o seu centro está em toda parte e sua periferia em parte nenhuma". Essa afirmação, retomada por Bruno, seu discípulo confesso, que chamou Cusa de "divino", implicava em duvidar ter Deus feito a Terra a razão de tudo, tendo o Homem como o objeto único da Criação. Induzia também a que se acreditasse na existência de outros deuses, rompendo com o monoteismo oficial.

O mais vasto império de Deus

Para Bruno porém quanto mais mundos houvesse maior ainda seria o império de Deus. Via mesquinhez e mediocridade em acatar-se o princípio de que o universo que nos envolve - comportando miriades de esferas cósmicas, "estes corpos heterogeneos, estes animais , estes grandes globos" -, girava apenas para atender a minúscula terra (Acerca do infinito, do universo e do mundo, 1584). Só os matemáticos bizonhos e os filósofos vulgares, disse ele, é quem construiam muralhas imaginarias no céu, fechando-o inutilmente aos espiritos abertos, pois: "Or ecco quello ch'há varcato l'aria, penetrato il cielo, discorse le stelle, trapassati gli margini del mondo, fatte svanir le fantastiche muraglie de le prime, ottave, none, decime, et altre che vi s'avesser potute aggiongere sfere per relazione de vani matematici e cieco veder di filosofi volgari" (Ora, aquele que cruzou o espaço, penentrando no céu, descortinando as estrelas, ultrapassando as margens do mundo, faz com que desapareçam as fantasiosas muralhas da primeira, oitava, nona, décima, e tantas outras que os maus matemáticos e o beco sem saída da visão dos filósofos vulgares puderam agregar às esferas).

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