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Um Comentário Estético

Foram vários os motivos que empurraram Gauguin para aquela viagem para o outro lado do mundo. Pobreza, o redespertar de um adormecido espírito de aventura, lembrança dos seus cinco anos de vida no mar, o cansaço com a Europa e a trivialidade da vida artística parisiense, a falta de aceitação pelo grande público (suas telas, como a da maioria dos impressionistas, eram vistas como borrões de uns alucinados), mas fundamentalmente, um esgotamento da sua pintura daquela fase. O Gauguin pré-Taiti assemelha-se muito a Vicent van Gogh, suas mulheres do campo, suas aldeãs com toucas típicas, pouco se diferenciam das que o grande holandês pintara. Nem os auto-retratos dele fogem muito ao padrão de Van Gogh. Não custa imaginar-se que o seu afastamento definitivo da companhia de Vicent não deveu-se apenas ao crescente avanço da perigosa loucura do amigo, mas porque Gauguin, apesar da sua forte personalidade e assombrosa energia, não conseguia escapar da influência estética dele. Logo o Taiti pareceu-lhe de boa distância. Lá, apesar dele sempre ter confessado que trazia suas pinturas todas elas no seu cérebro, ele seria ele mesmo.


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Camponesas bretãs de Gauguin, tema comum a Van Gogh

No Taiti


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Montanhas do Taiti, por Gauguin e ao vivo

Com a família despachada fazia tempo para a Dinamarca, Gauguin embarcou em Marselha em 1891 para a grande aventura. Atravessando os oceanos, 63 dias depois desembarcou, emocionado, em Papeete, o lugarejo mais importante do arquipélago e sede do governo colonial francês, embalando pelas promessas do verso de Baudelaire Lá tout n´est qu´ordre et bauté/ Luxe, calme et volupté (Lá onde tudo é ordem e beleza, luxo, calma e volúpia). Élie Faure, o historiador da arte, nunca entendeu a razão da longa fuga de Gauguin em direção aos mares do sul, dele ter-se enfiado em meio aos primitivos para buscar inspiração ou mesmo motivação, nem aceitou o fascínio de Gauguin por aquele paraíso Polinésio perdido no meio do nada. O pintor, porém, estava convicto que aquela era uma missão de purificação, de afastar-se da civilização e procurar junto àquela gente simples um espécie de essência primeira da arte que o mundo europeu havia perdido para sempre. Havia também um proposta crítica, extraída dos ensinamentos de Rousseau. Enquanto suas telas européias concentram-se, a maioria delas, nos duros trabalhos do campo, na sensaboria do dia-a-dia do camponês, vida sacrificada ao altar da civilização, as que ele desenhou na polinésia celebraram o ócio e a lassidão tropical. O seu desejo de mergulhar naquele mundo de palmeiras, de frutas doces e cabanas de palha foi tamanho que até arranjou, para escândalo e ruína da sua imagem junto à pequena comunidade colonial, um casamento maori com a nativa Tehamana. Tratava-se de uma saudável Eva polinésia que, durante um tempo, serviu-lhe de musa e modelo. Uns meses depois, Paris começou a ser inundada pelas telas daquele mundo exótico, de colorido fortíssimo, luxurioso, mas as coisas boas chegaram muito tarde para Gauguin.


reprodução (Nevermore - Fatata Te Miti)

Ócio e sensualidade inocente nos trópicos

Noa-noa


reprodução (Nave Nave Moe)

A doce vida nos trópicos

Numa das passagens do seu depoimento sobre sua experiência nos mares do sul, intitulado Noa-noa, onde registrou a hesitação que sentiu em suas primeiras experiência taitianas, Gauguin escreveu:

Tout m'aveuglait m'éblouissait dans le paysage. Venant de l'Europe j'étais toujours incertain d'une couleur cherchant de midi à 14 heures : celà était cependant si simple de mettre naturellement sur ma toile un rouge et un bleu. Dans les ruisseaux des formes en or m'enchantaient. Pourquoi hésitais-je à faire couler sur ma toile tout cet or et toute cette réjouissance de soleil. Probablement de vieilles habitudes d'Europe, toute cette timidité d'expression de nos races abatardies.


reprodução (La Orana Maria)

Uma bela raça exuberante

(Tudo me deslumbrou e me maravilhou na paisagem. Vindo da Europa eu estava sempre na incerteza de encontrar uma cor entre o meio-dia e às 14 horas: isto, fazia com que eu naturalmente colocasse na minha tela um vermelho e um azul. Em meio a um rio de formas que me encantavam. Porque eu hesitava em colorir a minha tela com toda aquele ouro e alegria do sol? Provavelmente devido aos velhos hábitos da Europa, toda esta timidez de expressão das nossas raças abastardadas.)





 
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