Cabeças-de-ovo
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Adlai Stevenson, candidato favorito dos cabeças-de-ovo nas eleições de 1952
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O simples fato dos americanos comuns denominarem seus intelectuais com o depreciativo termo de
eggheads (cabeças-de-ovo), já diz tudo. É revelador, assegura Hofstadter, do que a média da população ou da opinião pública, envolta na "atmosfera de intensa malícia e triste imbecilidade" - especialmente aquela que predominou na era do macartismo - pensa deles. Parte desta hostilidade originou-se do anticomunismo militante, acirrado ao máximo pela guerra fria, que via o intelectual como um ser relutante em apoiar as bandeiras do patriotismo exaltado quando não um potencial traidor, atraído pelo fascínio que o marxismo exerceu naqueles tempos.
Raízes do antiintelectualismo
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Patrick Henry na constituinte de 1787, apogeu dos gentleman
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Hofstadter vê as raízes do antiintelectualismo enlaçadas ainda com outros fatores da tradição americana, entre estes, a forte presença do Evangelismo e do Revivalismo, militâncias ou práticas religiosas muito populares entre os americanos. Ora, sabendo-se do ceticismo que a maioria dos intelectuais demonstra perante as coisas da fé e do sobrenatural, é natural que os pastores e pregadores em geral os vejam como ímpios, quando não como agentes das forças satânicas, distribuídos pela terra para abalar a crença dos simples. Além disso, constatou ele, deu-se, ao longo da história americana, o declínio político do
gentleman, o homem de salão intelectualizado e instruído na ciência do seu tempo, o que moldara a nação nos seus primeiros tempos. Benjamin Franklin era jornalista e cientista respeitado, Thomas Jefferson era quase um filósofo da Ilustração e um notável constitucionalista, e um número significativo dos demais integrantes da Grande Geração (expressão é de Dumas Malone), que redigiu a Declaração de Independência de 1766 e a Constituição de 1787, eram altamente qualificados. Com o tempo, porém, os padrões da democracia popular e as brigas internas entre eles foram superando os critérios do patriciado culto, de onde a maioria dos primeiros governantes se originava. Transformação que provocou o ocaso do
gentleman e a ascensão do técnico, vocacionado para as coisas práticas e imediatas, atraído pelos problemas de engenharia e não da metafísica e da literatura. E, com isso, desabou a imagem do intelectual, visto pelo povo, ainda segundo Hofstadter, como "uma marginal ou um bode-expiatório", contribuindo para que a reputação de quem pensa fosse vista como um defeito político.
O negócio contra o ócio
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Harding e Coolidge, a América são os negócios
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O resultado desse antiintelectualismo verifica-se nas declarações de dois presidentes norte-americanos. Foi Warren G. Harding quem disse, em 1920, que "esta é uma nação essencialmente de negócios". Afirmação rapidamente complementada pelo seu sucessor Calvin Coolidge, que averberou, em 1923, que "o negócio da América são os negócios". Ser uma nação escancaradamente voltada para as coisas materiais, para o bem-estar e o conforto, obcecada com as coisas práticas, coloca quase todo o país numa posição hostil às conquistas do intelecto. Para a maioria dos americanos, o Departamento das Patentes é muitas vezes superior a qualquer Academia de Ciências e Letras. Nada é mais incompatível com o negócio (essencialmente ativo, dinâmico) do que o ócio intelectual (contemplativo e reflexivo). Logo, os intelectuais nos Estados Unidos também concentraram o desprezo ou a indiferença dos homens do comércio, da banca e da indústria. E se, por acaso, são constrangidos pela força das circunstâncias a obterem um apoio de uma das tantas fundações de amparo mantidas pela gente de dinheiro, eles, os intelectuais, também terminam, ao seu modo, por tornarem-se homens de negócio (por exemplo, diminuindo ou omitindo críticas aos poderosos para não perderem as bolsas, negociando o silêncio por dinheiro).
A Era da Utilidade
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J.D.Rockefeller, símbolo da era da utilidade
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Apesar do inegável débito que o mundo da cultura tem para com os milionários, eles de fato, são em pequeno número. A determinação em fazer cada americano um businessman, um homem de negócios,é , por sua vez, perfeitamente adequada aos propósitos da elite do país, que, já em 1844, anunciava, seguindo um modelo protopositivista, a chegada da era da utilidade. Num discurso de início de ano letivo em Yale, o orador enfatizou que "a era da filosofia passou, deixando poucas recordações de sua existência. A era da glória morre e dela só ficou a dolorosa herança de sofrimentos humanos. A era da utilidade está começando e não é preciso muita imaginação, enfatizou ele, para antecipar-lhe um reinado duradouro...."