Onde estão os talentos?
Oppenheimer, certa vez, num encontro com Steiner, reclamou da falta de sucessores dos grandes imigrados dos anos 30 e 40. Onde estão, perguntou ele, aqueles que deveriam substituir Bhor, von Neumann, Szilard, Gödel, Fermi, Panofsky, Kantorovich ou Auerbach? O que levou a Steiner refletir sobre "o que aconteceria à cultura americana se não ocorresse a chegada da intelligentsia judaica e a existência de gênios em Leningrado ou Frankfurt? O que sobraria dessa cultura?" Na visão dele, mesmo com o aporte dos talentos estrangeiros, a cultura americana não consegue decolar. Ela não se propõe a ultrapassar os limites de Hollywood e das bandas de jazz e seus derivados. Nem mesmo uma intelligentsia (uma classe intelectual relativamente autônoma) genuinamente americana ela conseguiu gerar, deixando proliferar por todos os lados "o alegre matagal da mediocridade e do provincianismo".
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Niels Bohr e Kurt Gödel, quem os substituirá?
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Carência de valores centrais
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O MoMa de Nova York, um dos melhores do mundo
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A inexistência de um pensamento metafísico, desligado dos interesses materiais diretos, é um dos fatores apontados por Steiner para a pobreza intelectual americana. Se bem que tiveram William James na psicologia e fizeram um bom aporte à teoria dos contratos, continua inexistindo um conjunto de Valores Centrais na cultura americana, nem alguém de "pense o ser", que equipare-se a um Heidegger, a um Wittgenstein, Sartre, ou aos fenomenólogos Husserl e Merleau-Ponty. Não há nos Estados Unidos, disse ele, o que se possa identificar como uma comunidade de pessoas racionais, na qual prevalece a argumentação filosófica explícita e cujo motor da vida consciente é o pensamento abstrato. Se isso se verifica na metafísica, o mesmo pode se dizer da música (não da música popular, naturalmente), setor onde os americanos continuam sem alguém que faça sombra a um Stravinsky, a um Schoenberg, a um Alban Berg ou a um von Weber. Nem mesmo na matemática, na qual os Estados Unidos têm grandes nomes, eles foram criativos, visto que a maior parte deles abeberou-se nos gênios estrangeiros. E porque isso se dá? Qual a razão dos americanos não alcançarem os padrões mais elevados da alta cultura se eles dispõem, mais do que qualquer outro povo do presente, das condições materiais para tanto?
A ausência do pensamento abstrato
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Arquimedes, exemplo do sábio desinteressado
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O que carateriza o homem ocidental, afirma Steiner, desde os tempos de Pitágoras e de Platão, é a tendência para a abstração, pela atividade mental desinteressada, não-utilitária, não-produtiva, criando assim um "monumento ao intelecto intemporal". É a dedicação total de um indivíduo pensante ao objeto do seu estudo, sem que com isso ele espere honras ou compensações em dinheiro. Trata-se, simplesmente, do desenvolvimento de uma paixão pelo conhecimento puro, algo que inexiste entre ao americanos. É o caso de Arquimedes, referido por Steiner, que continuou debruçado sobre o seu estudo sobre as seções cônicas enquanto os inimigos invadiam Siracusa, acabando por matá-lo. Este fator de diferenciação, revelado na admiração das comunidades européias pelos seu pensadores, é que faz com que o nome deles ornamente ruas, praças e outros logradouros públicos (rua Descartes, rua Kant, praça Diderot, etc..), algo totalmente ausente nos Estados Unidos. "Por que", inquire Steiner, "as ruas americanas são tão silenciosas diante da lembrança do pensamento?"
Rompendo com a tradição
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Pitágoras e o conhecimento puro
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Ora, os americanos romperam com tal tradição do culto desinteressado pelo saber. Nem a consideram admissível. Para eles é inexplicável que um cientista ou um curioso inteligente qualquer perca seu tempo queimando horas de estudo e investigação em algo que não trará nenhum proveito imediato, material, palpável, para ou outros ou para ele mesmo. Opinião abraçada inclusive pelos altos círculos oficiais, como o então secretário da Defesa Charles E. Wilson, que durante sua gestão (1953-1957) não parou de fazer concentrados ataques à pesquisa pura. De certa forma, eles são utilitaristas radicais que não admitem a idéia do ócio contemplativo e instrutivo (aliás, o mesmo tipo de crítica que lhes foi feita por Erwing Panovsky, um emigrado alemão especialista em iconologia e história da arte), tipo de ócio que é uma tradição cultivada e respeitada na Europa: de Heráclito a Heidegger. O que os leva, como constatou o ensaísta Richard Hofstadter, a posições abertamente antiintelectualistas (
in Anti-intellectualism in American Life).