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Estados Unidos
Elite e Povo na Cultura Americana


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George Steiner

Nenhum dos países desenvolvidos de hoje dispõe da oferta cultural que está ao alcance do cidadão comum dos Estados Unidos. Uma enorme rede de bibliotecas, de museus, de livrarias, de cinemas, de óperas, de sinfônicas e demais espaços culturais espalham-se em rede por quase todo o território americano. A isso somam-se as milhares de escolas, de faculdades e universidades que tornam a nação industrializada com o maior número de estudantes, em todos os níveis, no mundo inteiro. Porém, segundo o mordaz e erudito crítico George Steiner, nada disso, nem essa soma gigantesca de recursos, fez com que a cultura americana chegasse aos pés da alta cultura européia, não se equiparando em profundidade sequer às letras soviéticas.

Uma cultura nova?


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Harvard, réplica de Oxford

Se bem que muitos americanos concordem com Steiner, alegam que a cultura do seu país é "nova", resultado da ocupação recente de um continente. Não poderia esperar-se algo muito extraordinário de uma nação que, de certo modo, ainda está em construção e cuja instituições e costumes mal datam de dois séculos, se comparadas às da Europa, quase todas milenares. Steiner desconsidera tal argumento. O que existe na América, diz, a língua, a filosofia, a música e a ciência, é um prolongamento do que havia na Europa na época das descobertas. Não houve uma ruptura. Harvard e Yale inspiram-se em Oxford e Cambridge, o inglês escrito e impresso nos Estados Unidos é o mesmo da época dos Tudor e da Bíblia do Rei James. A tão justamente famosa Declaração de Independência, redigida por Jefferson, é, por sua vez, um sumário das idéias dos philosophes do iluminismo europeu, e assim por diante. Se os pais peregrinos imaginaram a formação de um novo Adão numa Nova Canaã, é bom não esquecer que ele continuava falando inglês e era filho do velho cristianismo europeu. Portanto, longe deles criarem aqui uma nova arcádia, aqueles que desembarcaram na América, fugindo das trevas de Gomorra, estavam apoiados nos ombros gigantescos da cultura européia. Ocorre que o cenário americano é outro, no qual os pensadores não ocuparam nenhum lugar relevante.

A composição social


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A ocupação do continente foi obra da ação

Parte disso deve-se à própria composição social das massas que para ela migraram. Ao contrário do que muitos apregoaram (como Emerson, que mencionou ser o Atlântico uma peneira, deixando passar apenas a parcela liberal, aventurosa, de imigrantes europeus) a América, com exceção da primeira leva dos puritanos, desembarcados no século XVII, não foi povoada por gente determinada, empreendedora, com o espírito de risco os impulsionando, mas sim com o refugo da Europa. Na sua grande maioria descendiam das classes derrotadas, esmagadas pelo peso do absolutismo e das opressões feudais. Gente que veio para o Novo Mundo em desespero de causa, e que nunca manifestou grande preocupação para com as coisas mais elevadas da vida. Provavelmente, a luta pela sobrevivência numa terra desconhecida e hostil absorveu-lhes todas as energias, não permitindo que eles dessem saltos muito além das páginas do Evangelho. Isto fez com que o país se pautasse pela banalidade e pela mediocridade, ocorrendo somente duas exceções na história desta migração: aquela dos já citados puritanos do século XVII (que fundaram Harvard, trouxeram a imprensa e abriram as primeiras bibliotecas na Nova Inglaterra) e a seleta migração dos judeus alemães e de outros intelectuais esquerdistas originários da Mitteleuropa, que, fugidos do nazifascismo, vieram enriquecer a vida, a ciência e a arte americana (tais como Einstein, Fermi, Szilard, Brecht, Adorno, Fritz Lang, etc..). Foram eles quem deram qualificação às universidades americanas, a de Chicago, Princeton, Stanford e às da Liga de Hera. Harvard, ainda na década de trinta, era um conventículo de playboys filhos de famílias abonadas, sem nenhuma respeitabilidade acadêmica.


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Mayflower, a chegada dos pais peregrinos





 
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