Descartes e o Gênio Maligno
O que faz com que inúmeras vezes gente muito inteligente, até de gênio, cometa erros tão evidentes? Como era possível esse tipo de coisa ocorrer? Descartes deu então para imaginar, na sua primeira meditação, a existência de um gênio maligno, um enganador, enviado por Deus, de propósito, para nos fazer cometer desatinos, para mostrar a nossa falibilidade. Evitando assim que a soberba e a arrogância do ser humano tente emparelhar com a do Todo-Poderoso.
Atrás de um Cargo
"Suporei que...certo gênio maligno de enorme poder e astúcia tenha empregado todas as suas energias para enganar-me. Pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores são meras ilusões de sonhos por ele concebidos com a finalidade de enlear-me o juízo".
Descartes - Meditações, 1641
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Prédio de La Fléche, onde Descartes estudou em 1607-14
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Era um tempo em que seguramente os fundamentalistas liberais de hoje adorariam viver. No século XVII, os cargos públicos eram colocados à venda. Compravam-nos ao preço do mercado. Por volta de junho de 1625, sabendo da disponibilidade de um desses, o de oficial de justiça da região de Châtelleraut, sua terra natal, o jovem René Descartes tentou arrumar o dinheiro necessário para sacramentar-lhe a compra. Faltaram-lhe porém uma seis mil coroas para integralizar o montante. Não foi problema, pois um amigo da família prontamente ofereceu-lhe uma soma sem nenhuma exigência de juros. Entretanto, não foram os dinheiros faltantes que o preocuparam. Descartes sentiu-se com poucas condições para assumir a empreitada devido a não sentir-se seguro dos seus conhecimentos jurídicos. A carta que enviou ao pai, que estava em Paris, pedindo conselhos, certamente teve uma resposta negativa. Nem o velho Joaquim Descartes tinha lá essas confianças nas habilitações do filho. Desde então, ele desistiu de qualquer carreira jurídica e passou a viver dos bens herdados da sua mãe, dedicando-se ao ócio produtivo.
Em Paris dos Livres-pensadores
Fixou-se em Paris, no Fauborg Saint-Germain, num hotelzinho chamado
Les Trois Chappelets. Precedido pela fama de cientista e matemático inteligentíssimo, as portas dos homens de luzes não demoraram a abrir-se para ele. Em pouco tempo
tout Paris marchava pela Rue du Four, onde ele morava, para conversar com aquele gênio vindo da província (nascera em La Haya, próximo a Tours, em 1596). O mundo das idéias estava um tumulto, um caos.
Reformadores e Céticos
A reforma religiosa, que já celebrava um século, provocara um terremoto de proporções impressionantes. O velho edifício teológico-filosófico medieval, assentado na ciência de Aristóteles, defendido por uma legião de sacerdotes e de escolásticos, protegidos pelo papado, rangia por toda parte. Ninguém tinha mais firmeza em nada. Para acalorar ainda mais as coisas, o maior escrito da França, o filósofo Montaigne, o autor dos Ensaios (1580), ao retirar-se para o seu castelo, tornando moda entre os gentilshommes o cultivo do ócio solitário, pregara na porta da sua biblioteca a enigmática pergunta Que sai-je?, que sei eu? Justamente isso é o que Descartes passou a dedicar-se a responder. O que estava em moda entre os libertinos eruditos que o cercavam era dizer que "não se pode conhecer nada". Haviam ressuscitado o pensamento de um tal de Enesidemo, um filósofo cético que vivera entre 100 a 40 a.C., um seguidor de Pirro de Élis, um daqueles gregos excêntricos que suspeitava que ele mesmo estivesse vivo.
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A torre do castelo onde Montaigne recolheu-se
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