Deus, uma Força Mecânica
Ao insistir na tecla da dúvida, de que suspeitássemos das "verdades aceitas", Descartes preparou as nossas mentes para o devir, abrindo as portas para este colossal domínio que o homem moderno exerce hoje sobre a natureza. Pascal percebeu logo as conseqüências últimas do pensamento cartesiano: a própria existência de Deus em breve também seria posta sob suspeita, fazendo com que Ele deixasse de ser uma força moral para ver-se reduzido a uma expressão da mecânica, "a um piparote chamado para movimentar o cosmo". Ainda que não fosse esta a sua intenção, Descartes pavimentou o caminho para o agnosticismo e o materialismo moderno, pois seus sucessores não se orientariam mais na tentativa de interpretar a vontade do Ser Supremo, mas sim a razão e a sua própria Consciência (*).
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Pascal, temeu os efeitos do cartesianismo
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Como Pascal de certo modo previu, o cartesianismo, com sua mania de lançar dúvida sobre tudo e o gosto pela certeza racional, não limitou-se à filosofia ou à ciência, em pouco tempo a rejeição ao princípio da autoridade invadiu a seara da política e até a da própria religião (coisa que provavelmente teria escandalizado Descartes), provocando um profundo abalo sísmico no poder dos reis e dos sacerdotes.
(*) Gerd Bornheim aponta Descartes como um dos fundadores da modernidade na medida em que fornece os subsídios para um novo conceber da liberdade como livre-arbítrio, como autonomia alcançada pelo conhecimento, permitindo o homem tornar-se senhor - senhor da sua escolha (ver - O Sujeito e a Norma, in Ética, SP. 1992, pág.251)
A Morte nas Terras Geladas
A morte dele foi de certo modo prevista. Vivendo a maior parte do tempo na Holanda (um oásis para o pensamento numa Europa sitiada pelo fanatismo), resistiu o tempo que deu aos insistentes convites que a rainha Cristina da Suécia, mulher cultíssima, lhe fazia. Descartes, um fóbico aos climas invernais, relutava em ir residir na corte em Estocolmo, sabedor que sua saúde não suportaria naquele reino "de ursos, cercado de rochas e gelo". Terminou, porém, para lá embarcando, enfurnado na sua última máscara, a de preceptor da jovem rainha. Para desgraça dele, a soberana marcava-lhe as entrevistas para as cinco horas da madrugada! Foi demais para ele sobreviver naquele cenário quase boreal. Uma pneumonia devastou-o em 11 de fevereiro de 1650. Católico num país luterano, inumaram-no num cemitério reservado aos que não haviam ainda chegado à razão - o das crianças recém-nascidas. Somente dezessete anos depois, em 1667, um dos seus discípulos conseguiu remover o corpo do filósofo de volta para a França.
Descartes, um Fetichista
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Cristina, rainha da Suécia (1626-1689)
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A viagem dele à Suécia, quase que um suicídio, uma ida sem volta, sempre intrigou os seus admiradores e biógrafos. Primeiro supunha-se que ele não conseguira resistir aos apelos de Chabut, o embaixador francês, junto à casa dos Vasa, e que a vaidade em atender a rainha Cristina teria feito o resto. Graças a outras pistas (**), pode-se cogitar uma outra possibilidade. Descartes era um fetichista, sentido forte atração por mulheres vesgas. Sabe-se que suas resistências finalmente ruíram quando a rainha, gentil, enviou-lhe um pequeno retrato dela... Cristina era visivelmente estrábica!
(**) O dr. Stekel, um seguidor de Freud, devido a isso, identificou Descartes como um "caso clássico de fetichismo".
Obras de Descartes
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Ano
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Título
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1618
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Traité de Musique (Tratado da Música)
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1628
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Exposição da doutrina
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1633
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Traité de la lumière (Tratado da luz)
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1637
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Discurs de la Méthode (Discurso do Método)
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1641
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Méditations sur la Philosophie première (Meditações sobre a filosofia primeira).
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1644
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Principes de la Philosophie (Princípios de filosofia)
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1649
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Traité des Passions de l'âme (Tratado das paixões da alma)
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Descartes e suas Máscaras |
O Sonho de Descartes |
Na Guerra dos Trinta Anos |
Um Corpo Frágil |
Entre as Armas e a Geometria |
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Obras de Descartes |
Bibliografia
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