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Nasce o discurso do método

O resultado das suas aventuras nos campos da matemática, da fisiologia e da anatomia foi o seu mais retumbante escrito: Discours de la Méthode, o Discurso do Método, aparecido em 1637, e, desde então, universalmente tido como um marco da pensamento. Ou ainda como disse Hegel dele, o momento em que a filosofia entrava em seu "período de entendimento pensante". Descartes escreveu o pequeno tratado (umas 80 páginas) de forma claríssima e inconfundível. A prosa que adotou serviu desde então como escrita referencial, obrigatória, pelo menos na França, aos que se aventuravam no campo da filosofia, do ensaio e das demais coisas científicas ou humanas(até que a prosa francesa foi estragada a partir da metade do século XX por sua adesão/capitulação ao obscuro expressar alemão).

Contra o Cepticismo


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O astrônomo (Vermmer)

A intenção dele era fazer do Discurso uma introdução a uma tríade de tratados científicos - Dioptrique, Méteores, Géométrie - porém o texto, sob ponto de vista histórico, tornou-se algo muito mais importante, consagrando-se como um manifesto da razão. Havia além disso uma outra motivação, subjacente ao Discurso do Método. Desde que ele confrontara-se uns anos antes, em 1628, com Chandoux, um céptico que dizia ser impossível haver certezas em se tratando da ciência (aceitando-se apenas possibilidades), Descartes viu-se na obrigação de refutar aquele herdeiro francês de Sextus Empiricus, apresentando-se como o seu oposto, como o campeão do rigor, da exatidão, da convicção. Pode-se até considerar que Descartes agiu neste sentido como um bom católico que sempre foi, pois sua intenção, ao assentar-se inicialmente na dúvida, era alcançar certezas, era reafirmar a sabedoria e a crença em Deus e na Igreja, e não um subversivo, um detonador da religião. O destino, porém, não quis assim.

O Manifesto do Racionalismo

"Não devemos acreditar nos muitos que dizem que só as pessoas livres devem ser educadas, deveríamos antes acreditar nos filósofos que dizem que apenas as pessoas educadas são livres."

Epitecto (55-135)

Como o próprio filósofo assinalou na introdução, dirigia-se o Discurso às pessoas dotadas de bom senso. Não era preciso ser um eleito dos deuses ou uma sumidade para poder entendê-lo. Assim Descartes rompeu com a tradição originada do pitagorismo, realçada ainda por Copérnico - que dizia que a sabedoria e a ciência só estavam ao alcance de uns poucos, dos iniciados - tornando-se ele mesmo um divulgador dos seus achados, propondo uma democratização do conhecimento, ou pelo menos estendo-o aos que tinham "bom senso". O Discurso do Método foi o Manifesto do Movimento Racionalista, que se iniciava ali com ele, registrando o que percebera antes de todos os outros, o fato de que no seu século, o 17, dava-se a exaustão do pensamento tradicional, herdeiro da escolástica medieval.


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Reinava a confusão na ciência

Parte dele, do pensamento tradicional, vinculava-se oficiosamente ao poder da Igreja Católica, remontando aos tempos da Patrística, a outra parte vinha do tomismo (a cristianização da antiga filosofia pagã de Aristóteles, feita por S. Tomás de Aquino), hegemônico nas universidades. Ora, desde a reforma de 1517 e das guerras religiosas que se seguiram, a influência de Roma declinara. As certezas defendidas por ela, extraídas do tomismo, por sua vez, foram abaladas pelas teorias de Copérnico e de Galileu. Aliás, Descartes, que nunca abandonou a fé católica, decidiu-se fixar residência definitiva na Holanda, país protestante, quando soube que o julgamento do sábio pelo Santo Ofício obrigara-o à abjuração, em 1633.

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