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Peregrinos em marcha

"Quando abril, com suas doces chuvas, cortou pela raiz a aridez de março...então sentem as pessoas vontade de peregrinar...o desejo de buscar plagas estranhas, com santuários distantes, famosos em vários países. E rumam principalmente, de todos os condados da Inglaterra, para a cidade de Cantuária, à procura do bendito e santo mártir."
Chaucer - Prólogo dos Contos da Cantuária, 1386

Original foi a maneira de Chaucer apresentar ao seu público o idioma que ele ajudou a consolidar. Nada de fazer um dicionário, mas sim mostrar a riqueza da língua numa atraente história, narrando uma divertida peregrinação de um grupo heterogêneo de pessoas. Para tanto imaginou uma marcha de 29 viajantes das mais variadas origens sociais que, saindo de Tabard Inn, no Southwark, nas proximidades de Londres, dirigiram-se à cidadezinha da Cantuária. Lá prestariam suas homenagens ao santuário de São Thomas Becket (o bispo, mártir católico que havia sido assassinado pelos sicários do rei Henrique II, em 1170), cuja sepultura estava na Catedral local, no condado de Kent, ao sul da ilha. Compunha-se o grupo de gente das três ordens: um cavaleiro e seu escudeiro, um mercador em armas, alguns monges, um frade mendicante, uma prioresa, um pároco, um vendedor de indulgências, um estudante, alguns profissionais liberais, tais como um médico, um advogado, um jurista, e, por fim, a gente do povo, como um moleiro, um feitor, um cozinheiro, um armarinheiro, um carpinteiro, um tintureiro, um tapeceiro, um marujo, um lavrador, etc. além de uma impagável viúva a mulher de Bath, que enterrara cinco maridos. Por sugestão do albergueiro, para ajudar a passar o tempo, alguns dos integrantes da aventura iriam sendo sorteados para que fossem contando aos demais gostosas histórias pelo caminho. Quase todas picantes, de amor, sexo e morte, fortemente inspiradas em Boccaccio (que os críticos afirmam que Chaucer não chegou a ler). Formaram esses contos todos um painel extraordinário do século XIV da Inglaterra.

Personagens singulares
O fascinante na prosa de Chaucer é que não só ele tem pleno sucesso em dar vida a cada um dos seus personagens, individualizando-os de maneira inconfundível, como dotou-os, a cada um deles, de traços psicológicos e de special languages, de uma fala bem própria. Um idiolect, como prefere chamar J.L.Serrano Reyes (The Host's idiolect).

Recurso que os movimentos literários que o sucederam pelos séculos a fora iriam fazer largo uso. Os seus personagens não são construções abstratas, mas seres humanos comuns que expressam as classes em que se originaram, sua situação social e as profissões que exerciam. Assim não se pode conceber a existência de Shakespeare (que nele inspirou-se para compor Tróilo e Criseida), nem a de Milton, sem que eles fossem antecedidos pela enorme presença literária de Geoffrey Chaucer, o merecido pai do idioma Inglês.

reprodução
Os alegres peregrinos de Chaucer

Marcos Literários da Língua Inglesa
Data Autor Obra
1387 Geoffrey Chaucer Os Contos de Cantuária (Canterbury Tales)
1587-1613 William Shakespeare Obra Teatral e mais 154 sonetos
1611 47 especialistas sob presidência do arcebispo Lancelot Andrew A Bíblia do Rei James I (The Authorised Version)
1665-1674 John Milton O Paraíso perdido (Paradise lost)
1747-1755 Samuel Johnson Dicionário da Língua Inglesa (English Dictionary)

Divisão histórica da Língua Inglesa

1. Anglo-saxão Antigo......até 900 - Inglês do Rei Arthur

Novo....... 900- 1100 - Inglês de Aelfric

Transição 1100-1200 - Inglês de Layamon


2. Inglês Médio
(Middle English)
Antigo......1200-1300 - Inglês de Orm

Novo.......1300 - 1400 - Inglês de Chaucer

Transição 1400-1500 - Inglês de Caxton (*)


3. Inglês moderno Tudor ...... 1500 - 1650 - Inglês de Shakespeare

Novo ... 1650

Presente - a partir do século XVIII


(*) William Caxton foi um mestre impressor que abriu a primeira oficina em Westminster, em 1476, editando em seguida os Contos de Canterbury de Chaucer em 1478

Fonte: Divisão da Língua Inglesa do prof. Henry Sweet ( ver Esboço histórico da formação da Língua Inglesa, p. 33 e segs.)

reprodução
Capa da edição brasileira de Chaucer

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