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O Estilo de Borges

Essa soma impressionante de leituras, que poderia tê-lo reduzido a um colossal pedante, na verdade, graças ao seus inconfundível estilo - o estilo de Borges - terminou fascinando a todos, tornando o contato com seus contos um prazer estético ímpar que o fez um dos imortais da literatura espanhola. A impressão que fica é de que devorou todas as obras importantes possíveis de se conhecer durante uma vida e que, ao debruçar-se para produzir um texto ou um verso, transformava tudo aquilo numa outra realidade. Era a arte de escrever elevada ao seu mais alto grau. Não só o leitor é apresentando a uma majestosa recriação das coisas como é conduzido para outras situações, insólitas e inesperadas, inteiramente imaginadas e arquitetadas por um cérebro prodigioso e criativo.


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Tango de arrabalde

A Vantagem do Periférico

"Filósofos escrevem para professores; pensadores para escritores."

Emil Cioram


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E. Cioran, admirador de Borges

Como foi que tal fenômeno das letras surgiu na Argentina, um país tão periférico aos grandes centros? Cioran, o filósofo misantropo, seu admirador, dizia entender a projeção do gênio de Buenos Aires exatamente por ele pertencer a uma cultura de "segunda ordem", marginalizada em relação às outras capitais culturais. Era exatamente esse afastamento que induzia-o ao cosmopolitismo. Os escritores ocidentais pareciam-lhe irremediavelmente condenados ao provincianismo. Consideram-se o umbigo do mundo, estabelecendo limites acanhados para seus horizontes. Borges, ao contrário, por estar numa das fronteiras mais extremas do Ocidente, como se de pé numa torre, podia saciar sua curiosidade sobre tudo, cativado pelo que a humanidade havia produzido de melhor.

Uma Página Sombria


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Borges nas grades da cegueira

Manchou-lhe a estupenda e gloriosa trajetória (nos últimos anos de vida, Borges virara um totem cultural consumido pela mídia internacional) a sua confraternização pública com as ditaduras militares. Ao apertar a mão de Augusto Pinochet em 1976, aceitando-lhe uma condecoração, perdeu definitivamente a possibilidade de lhe outorgarem o Prêmio Nobel de Literatura. Supõe-se que foi esse seu gesto, a sua simpatia para com os inquisidores fardados do Cone Sul, que inspirou Umberto Ecco na elaboração do personagem, um tenebroso monge guardião de livros, que aparece no O Nome da Rosa. Trata-se de Malaquias, um reacionário e cruel ancião, responsável pela labiríntica biblioteca do sinistro mosteiro, mentor do terrífico ardil que traz a desgraça para a ordem religiosa. Se Nietzsche, doente, fraco e impotente, celebrava a virilidade e o poder, Borges, cego e solitário, talvez imaginou-se seguro e protegido pelas tiranias pretorianas da América Latina. Com o passar do tempo porém, esqueceu-se esse mau passo desse grande escritor, tornando-o irrelevante perante a sua magnitude como notável estilista da língua espanhola moderna. Talvez um dos mais relevantes dela no século XX. Este Homero do Rio da Prata morreu aos 86 anos, em Genebra, no dia 14 de junho de 1986, como um europeu que retornava do desterro para o seu amado Velho Mundo.

Obras de Borges
(Títulos em espanhol)

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Fervor por Buenos Aires (Obelisco)

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