Borges: o Homero do Prata
O escritor argentino Jorge Luís Borges, morto em 1986, é considerado um dos maiores escritores da Língua Espanhola moderna. O seu sucesso deu-se de maneira tardia, somente quando passou a ser admirado e incensado na França, entre outros pelo filósofo Michel Foucault, é que alcançou a consagração mundial. Por sua condição de escritor e poeta extraordinário, e por ser cego, deram para chamá-lo de Homero do Prata.
Um Cego Ilustre
"Borges é alguém capaz de meter o universo numa caixa de fósforos."
Eugênio Montale, 1959
Comoviam-se ao vê-lo caminhar meio cambaleante, tateando o chão com sua bengala pelos corredores da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, onde era diretor, recitando versos em inglês, em francês ou em antigo anglo-saxão. Enterneciam-se ainda mais quando viam-no deter-se em frente a sua estante favorita, que tinha quatro faces, e depois de alguma nervosa hesitação retirava um volume. Trazia então o volume para até bem junto dos olhos e exultava quando, por uma pequeníssima fresta deles conseguia vislumbrar parte do título. A dolorosa ironia desse pequeno espetáculo é que um dos maiores escritores do mundo - o argentino Jorge Luís Borges - era desprovido de visão.
Autor Universal
A cegueira até que não foi dos aspectos mais espantosos em se tratando dele. O que deslumbrava, quem assistisse às suas conferências ou apreciava a sua literatura, era o universalismo, a variedade e a excentricidade dos temas de Borges. Nascido em Buenos Aires em 24 agosto de 1899, criado em meio ao patriciado portenho, culto, esnobe e antidemocrático (como a maioria dos seus pares), neto de uma avó inglesa e escolarizado em Genebra, na Suíça, Jorge Luís orientou-se desde cedo em função dos livros e da atividade como escritor. A progressiva dificuldade com a vista - resultado de uma desgraçada herança genética - condicionou-o a concentrar-se em ler tudo o que pudesse no menor tempo possível, e com o grande rigor seletivo, antes que aquela cortina escura baixasse sobre seus olhos e o reduzisse definitivamente ao mundo das sombras (ele dizia ver tudo "amarelo"). Como ele mesmo disse a respeito do seu mal - "es una clausura, pero tambien una liberación". Ela propiciava-lhe a solidão inventiva, ao mesmo tempo que era uma chave para abrir portas do inconsciente e uma álgebra a ser solucionada. O resultado foi extraordinário.
Dos Clássicos ao Arrabalde
Transitava pelos clássicos e por temas exóticos com uma intimidade assombrosa. Não satisfeito com Dante, Shakespeare ou Kafka, mergulhava nas sagas islandesas, nas lendas orientais e deliciava-se com
As mil e uma noites, traduzidas por Sir Richard Burton. Eventualmente incursionava pelos subúrbios da sua amada Buenos Aires colhendo histórias de
cuchilleros (esfaquiadores) e suas rixas mortais, ou de casos bárbaros, medonhos, ocorridos nos pampas de antanho. Foi um dos raros escritores de primeiro time que aceitou parceiros, como o seu amigo bem mais jovem, Bioy Casares, com quem muito se divertiu e fantasiou. Aprendeu alemão por si mesmo para
ler Heine e Schopenhauer, seu filósofo favorito. Identificou a sua desafortunada situação com aquela imagem da existência cinzenta e pessimista do pensador alemão e seu radical cepticismo em querer curar as mazelas humanas. Se o homem é incorrigível, sendo uma lamentável perda de tempo querer emendá-lo, só lhe restava o refúgio nos livros e nos autores raros. Daí a atração que sentia por tipos tão díspares como o alemão Arthur Schopenhauer e o aventureiro inglês Richard Burton, que podiam oferecer-lhe emoções tão distintas.
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