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Biocracia
A Vida Desprezível


Galton (1822-1911), o difusor da eugenia

"Algum nunca chega a ficar doce, apodrece já no verão. É a covardia que o mantém pendurado no seu galho. Vive gente em demasia e por tempo demais fica pendurada em seu galho. Possa vir a trovoada que sacuda da árvore todos esses frutos podres e bichados! Possam vir os pregadores da morte rápida! Seriam para mim , as verdadeiras trovoadas e os sacudidores das árvores da vida!" - F.Nietzsche - "Assim falou Zaratustra" - 1ª parte - Vom freien Tode, 1885

Sir Francis Galton, o sobrinho de Darwin, como quase todo cavalheiro vitoriano era um excêntrico. Pesquisador obsessivo, maníaco por medição - foi um dos pioneiros do emprego da estatística - consta que percorria as igrejas de Londres, de todas as fés, para estudar o tédio provocado pelas missas e sermões. Os bocejos, a sonolência, o arrastar de pés, e a impaciência das congregações, rigorosamente contabilizados por ele, convenceram-no da ineficácia das orações em obter qualquer favor divino. Mas não foi por isso que Galton terminou sendo conhecido e, sim, por ter-se tornado num advogado da eugenia - a ciência da purificação racial - expressão cunhada por ele mesmo, em 1883.

Claramente influenciado pelo grande parente, que havia afastado a teologia da Criação, Galton concluiu que os traços positivos dos seres humanos eram adquiridos hereditariamente. Um gênio, por exemplo, não era obra do acaso e sim resultado de uma feliz combinação biológica, transmitida pelos seus pais. Da mesma maneira que havia família de idiotas, havia a dos superdotados. A evolução lógica de tais pressupostos é de que, como já pensara Platão, deveria dar-se uma mão à Natureza no seu trabalho de "seleção natural". Propôs que homens de talento fizessem casamentos arranjados com mulheres ricas, para fecundarem filhos prodígios. Não só introduziu a cadeira de "eugenia" na Universidade de Londres, como fundou, em 1907, a The English Eugenics Society, afim de difundir suas concepções.

A eugenia negativa

Mas esse lado, que alguns consideram como a "eugenia positiva", que procurava orientar as pessoas a realizarem "casamentos saudáveis", foi obliterado pela outra face: a "eugenia negativa". Não demorou muito para que filósofos como Nietzsche e racistas como Vacheur de Laponge, cultivassem a idéia de que se deveria também eliminar "os frutos podres e bichados". Uma nova doutrina política emergia da evolução das ciências naturais: o social-darwinismo. O seu princípio básico era de que deveria passar-se a utilizar-se dos modernos conhecimentos de biologia, especialmente após a redescoberta das leis de Mendel, para a consecução de uma sociedade biocrática, lançando mão da engenharia genética. As desigualdades sociais, segundo os social-darwinistas, não dependiam das imperfeições estruturais de uma sociedade injusta como denunciavam os reformadores, mas à deformações genéticas provocadas por casais pobres ou doentes, ignorantes e irresponsáveis, que geravam gente estropiada.


Quadro dos que não têm direito à vida (séc.19)

Gradativamente autodelegaram-se a função de árbitros da vida apontando seu dedo acusador para aqueles que, segundo eles, levavam uma "vida desprezível" (Lebensumwertes Leben) e que, depois de classificados em 5 degraus, deveriam ser, de alguma forma, neutralizados, pois "não tinha direito à vida". Foi esse o substrato teórico que embasou a legislação de esterilização adotada nos anos vinte e trinta na maioria dos países anglo-saxãos e germânicos, com grande apoio da comunidade científica e médica. Nos E.U.A, depois da crise de 1929, mais de vinte estados da União, aprovaram-na. Na Suíça ela já existia no cantão de Vaud desde 1929, e a Dinamarca, Noruega, Finlândia e Suécia, aplicaram-na ao largo dos anos 30, indo até o fim da guerra.

As Leis de Eugenia

Em 22 de junho de 1933, o Ministro do Interior, o nazista W.Frick, introduziu-a na Alemanha - com a denominação de Lei da Profilaxia dos Descendentes - a pretexto de que o país estava "gravemente doente", determinando a esterilização em massa, que chegou a atingir, depois de serem submetidos à Corte de Saúde Hereditária, aproximadamente 200 a 350 mil indivíduos de ambos os sexos. Cifra considerada muito baixa aos olhos do Dr. Fritz Lenz, que advogava que devia-se atingir a 20% da população alemã, ou seja uns 10 milhões!

Tudo isso se encontra em livros especializados e é do conhecimento de grande parte das associações científicas e dos geneticistas. Parece que a imprensa sueca, ao anunciar escandalizada a esterilização praticada lá, entre 1932 e 1946, em 60 mil mulheres, só descobriu isso recentemente.



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