A Revolução Balzaquista
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Catarina de Medicis, estuda por Balzac
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Balzac operou uma revolução na novela. Percebeu que (apesar de ideologicamente manter-se no partido legitimista, saudoso do domínio da nobreza, monarquista e católico), havia grande dramaticidade no que denominava de "borra social", a gente simples que o cercava, seus vizinhos, e que perfazia a grande maioria dos moradores das cidades. Daí ter-se empolgado com Stendhal, seu contemporâneo, que abrira um filão igual com o
Vermelho e o Negro, 1830. Por detrás da vida de um tabelião, de uma modista, de um perfumista, de uma dona de casa, de um pároco de aldeia ou de um jornalista existiam epopéias a serem narradas. As ruas e as habitações comuns guardavam pepitas de ouro que um esforçado homem de letras poderia extrair. Para reproduzir, por exemplo, a tragédia da ingratidão, não era preciso, como no tempo de Shakespeare, expor os infortúnios do rei Lear com suas filhas, princesas. Ali mesmo - mostrou Balzac a todos - no fauburg de Saint-Marceau, um bairro de Paris, na Maison Vauquer, igual drama de ingratidão se repetia. Lá, naquela modesta pensão, um pobre velho aposentado chamado Pai Goriot (que deu o título a um dos seus livros mais famosos) vivia a pão e água para sustentar o capricho de suas filhas, ambiciosas e mal-agradecidas.
O Historiógrafo da Vida Privada
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A mesa de Balzac, a pequena fábrica
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O escritor, enfim, como quis Henry Fielding, tornava-se o historiógrafo da vida privada. Mostrou-se assim indisposto a abrigar em seus romances uma grande figura da história real. Napoleão, por exemplo, a quem devotava respeito, aparece palidamente nos começos de
Uma mulher de trinta anos, comandando uma parada militar. Ele acreditava que a presença dessas personalidades magníficas como Cromwell (a quem ele dedicou uma peça), tendiam a ofuscar os demais personagens que participavam nas tramas. Nada custa especular que essa preferência dele pelo comum oposto ao excepcional ou heróico
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As paixões, uma matéria-prima
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(ou ainda revelar o heróico no que parecia ser comum), possa ser uma inconsciente aclimatação dele com a era de mediocridade que lhe coube viver. Balzac foi contemporâneo quase que por inteiro da sociedade pós-napoleônica, dominada pela rotina conservadora da Restauração (1815-1848), que banira o feito extraordinário do seu horizonte, obrigando-o a descobrir extravagâncias por de trás do balcão do burguês. Isso não o impediu, entretanto, de fazer eventuais incursões na vida da nobreza, como no seu ensaio histórico sobre Catarina de Médicis e outros livros de aventura.
Um Shakespeare e um Dante Burguês
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Balzac e seu burel, o escritor-monge
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Ao dramatizar a vida dos burgueses, mostrou que a inveja de um Iago não destruía apenas o atormentado Otelo. O mesmo estrago ela fazia ao modesto perfumista César Birotteau, em razão das manobras perversas de um balconista da sua loja. Balzac plebeizou o que Ésquilo e outros grandes áticos reservaram às dinastias gregas. O que Shakespeare e Racine atribuíam à nobreza, ele estendeu aos comuns. A grande queda, revelou ele, não era um infeliz apanágio que só ocorria a um monarca mitológico como Agamenon, ou com Édipo Rei e seus filhos, todos príncipes de sangue azul. Ela também se dava em meio à gente miúda. Eles também tinham direito ao seu quinhão na tragédia humana. Os burgueses e os pobres não deviam só aparecer na literatura como pícaros ou seres cômicos e desprezíveis (como Molière, por exemplo, os tratou no
Burguês fidalgo)
Cogitou-se que o título geral da sua obra - a
Comédia Humana - foi-lhe inspirado diretamente pelo monumento de Dante. Da mesma forma com que o ilustre florentino desenhara um imenso afresco retratando o universo medieval, ainda que no imaginário mundo do além do cristianismo, Balzac faria o mesmo com a sociedade francesa, ainda que recorresse a pincéis de cerda torta e às tintas exageradas.
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